Nas últimas semanas, precisei
desfilar, desenvolver e/ou adquirir um repertório de habilidades
socioemocionais. Tenho vivido, ao longo desse tempo, um grande número de
encontros e reencontros, todos muito desejados, esperados e alvissareiros.
Ocorre que, por conta de todas as demandas suscitadas pelos papeis que
desempenhamos no mundo, acabei, por minha própria falha, descuidando do meu
silêncio, da dimensão sem a qual tudo em minha vida se esvai como areia entre
os dedos.
Alguns dos efeitos colaterais
desse apartamento são muito indesejados. Com efeito, o silêncio sobre o qual
tanto falo não tenha diretamente a ver com a ausência de fala; no entanto, na
indesejável ausência de seus efeitos, flagro-me frequentemente falando o que
não devo, muitas vezes para corresponder às supostas expectativas de quem está
diante de mim: nesses momentos, ou falo mais do que o necessário ou me disperso
em meio a comentários supérfluos, absolutamente contrários aos propósitos de
quem possui aspirações de desenvolvimento pessoal. Em outros momentos, acabo me
esquecendo de datas e compromissos: ontem mesmo passei 2 horas ao lado da minha
esposa, desde que acordamos, até me lembrar que era o aniversário da pessoa por
quem nutro o maior amor do mundo. Buscando me perdoar desse erro, resolvi fazer
um bolo para ela: esqueci de untar a forma e até mesmo do bolo no forno. Acabou
queimando. Foi então que resolvi buscar minha fonte de cura: correr.
Com efeito, um dos efeitos colaterais desse processo foi a indisciplina com a corrida. Depois de duas semanas de poucos treinos, saí de casa disposto a percorrer 10 km em ritmo confortável. Por volta do quilômetro 5, quando então a adaptação psicofisiológica chegou a um nível ótimo, houve como que um ‘estalo’, um retorno ao meu silêncio. Esse momento foi como que uma epifania; foi o momento em que, durante minhas corridas, emerge o estado mental graças ao qual posso novamente me ver em um nível não-cotidiano. O excesso de informações, estímulos e demandas sociais de que se constitui o mundo contribui sobremaneira para que nos mantenhamos em um nível extremamente raso de autoconsciência. Como poderei atender adequadamente as(os) pessoas em meu Estágio, especialmente se considerar que são pessoas idosas, se estou refém das superfícies?
A questão que se me impõe agora é a seguinte: diante da necessidade de continuar desenvolvendo essas habilidades socioemocionais (das quais minha prática em Psicologia, por exemplo, não pode prescindir) e de oferecer o melhor que eu tenho a oferecer a todos aqueles com quem convivo, como voltar a fazer do silêncio a tônica da minha vida? Essa é a pergunta de ouro que, há milênios, fazem os grandes patronos da nossa espiritualidade, e a qual pode ser traduzida da seguinte maneira: como manter o deserto em meio aos ruídos que insistem em nos cegar e nos tornar reféns das efemeridades e superficialidades?
Over the past few weeks, I have had to display,
develop, and acquire an entire repertoire of socio-emotional skills. During
this period, I have experienced a great number of meetings and reunions, all of
them deeply desired, eagerly anticipated, and genuinely joyful. The problem is
that, because of all the demands generated by the roles we perform in the
world, I have, through my own fault, neglected my silence—the dimension without
which everything in my life slips away like sand through my fingers.
Some of the side effects of this estrangement
are highly undesirable. Indeed, the silence of which I so often speak has
little to do with the mere absence of speech. Yet, when deprived of its
effects, I frequently catch myself saying what I ought not to say, often in an
effort to meet the supposed expectations of those before me. At such moments, I
either speak more than necessary or lose myself in trivial remarks, entirely
contrary to the aspirations of someone committed to personal growth. At other
times, I simply forget dates and commitments. Just yesterday, for instance, I
spent two hours beside my wife—from the moment we woke up—before remembering
that it was the birthday of the person I love most in the world. Trying to make
up for my lapse, I decided to bake her a cake. I forgot to grease the baking
pan—and even forgot about the cake in the oven. It burned. That was when I
decided to seek my source of healing: I went for a run.
Indeed, one of the collateral effects of this
whole process has been my lack of discipline with running. After two weeks of
training very little, I left home determined to run ten kilometers at a
comfortable pace. Around the fifth kilometer, once my psychophysiological
adjustment had reached an optimal level, something like a sudden click
occurred—a return to my silence. The moment felt like an epiphany. It was the
state of mind that emerges during my runs, allowing me once again to see myself
from a level beyond the ordinary. The excess of information, stimuli, and
social demands that make up our world contributes enormously to keeping us at
an exceedingly shallow level of self-awareness. How can I adequately care for
the people I meet during my clinical internship—especially considering that
they are older adults—if I remain imprisoned by surfaces?
The question now confronting me is this: given
the need to continue developing these socio-emotional skills—without which, for
example, my work in Psychology would be impossible—and to offer the very best I
have to everyone with whom I live and work, how can I once again make silence
the governing principle of my life? This is the golden question that the great
masters of our spiritual traditions have been asking for millennia, and it may
be translated as follows: How can one preserve the desert within, amid the
noises that insist on blinding us and making us prisoners of the ephemeral and
the superficial?

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