sexta-feira, 18 de julho de 2025

Em 18 de Agosto de 2025 (segunda). Durante a corrida: pensamentos e o silêncio // On August 18, 2025 (monday). During my run: thoughts and silence

 


Nas últimas semanas, precisei desfilar, desenvolver e/ou adquirir um repertório de habilidades socioemocionais. Tenho vivido, ao longo desse tempo, um grande número de encontros e reencontros, todos muito desejados, esperados e alvissareiros. Ocorre que, por conta de todas as demandas suscitadas pelos papeis que desempenhamos no mundo, acabei, por minha própria falha, descuidando do meu silêncio, da dimensão sem a qual tudo em minha vida se esvai como areia entre os dedos.

Alguns dos efeitos colaterais desse apartamento são muito indesejados. Com efeito, o silêncio sobre o qual tanto falo não tenha diretamente a ver com a ausência de fala; no entanto, na indesejável ausência de seus efeitos, flagro-me frequentemente falando o que não devo, muitas vezes para corresponder às supostas expectativas de quem está diante de mim: nesses momentos, ou falo mais do que o necessário ou me disperso em meio a comentários supérfluos, absolutamente contrários aos propósitos de quem possui aspirações de desenvolvimento pessoal. Em outros momentos, acabo me esquecendo de datas e compromissos: ontem mesmo passei 2 horas ao lado da minha esposa, desde que acordamos, até me lembrar que era o aniversário da pessoa por quem nutro o maior amor do mundo. Buscando me perdoar desse erro, resolvi fazer um bolo para ela: esqueci de untar a forma e até mesmo do bolo no forno. Acabou queimando. Foi então que resolvi buscar minha fonte de cura: correr.

Com efeito, um dos efeitos colaterais desse processo foi a indisciplina com a corrida. Depois de duas semanas de poucos treinos, saí de casa disposto a percorrer 10 km em ritmo confortável. Por volta do quilômetro 5, quando então a adaptação psicofisiológica chegou a um nível ótimo, houve como que um ‘estalo’, um retorno ao meu silêncio. Esse momento foi como que uma epifania; foi o momento em que, durante minhas corridas, emerge o estado mental graças ao qual posso novamente me ver em um nível não-cotidiano. O excesso de informações, estímulos e demandas sociais de que se constitui o mundo contribui sobremaneira para que nos mantenhamos em um nível extremamente raso de autoconsciência. Como poderei atender adequadamente as(os) pessoas em meu Estágio, especialmente se considerar que são pessoas idosas, se estou refém das superfícies?

A questão que se me impõe agora é a seguinte: diante da necessidade de continuar desenvolvendo essas habilidades socioemocionais (das quais minha prática em Psicologia, por exemplo, não pode prescindir) e de oferecer o melhor que eu tenho a oferecer a todos aqueles com quem convivo, como voltar a fazer do silêncio a tônica da minha vida? Essa é a pergunta de ouro que, há milênios, fazem os grandes patronos da nossa espiritualidade, e a qual pode ser traduzida da seguinte maneira: como manter o deserto em meio aos ruídos que insistem em nos cegar e nos tornar reféns das efemeridades e superficialidades?


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Over the past few weeks, I have had to display, develop, and acquire an entire repertoire of socio-emotional skills. During this period, I have experienced a great number of meetings and reunions, all of them deeply desired, eagerly anticipated, and genuinely joyful. The problem is that, because of all the demands generated by the roles we perform in the world, I have, through my own fault, neglected my silence—the dimension without which everything in my life slips away like sand through my fingers.

Some of the side effects of this estrangement are highly undesirable. Indeed, the silence of which I so often speak has little to do with the mere absence of speech. Yet, when deprived of its effects, I frequently catch myself saying what I ought not to say, often in an effort to meet the supposed expectations of those before me. At such moments, I either speak more than necessary or lose myself in trivial remarks, entirely contrary to the aspirations of someone committed to personal growth. At other times, I simply forget dates and commitments. Just yesterday, for instance, I spent two hours beside my wife—from the moment we woke up—before remembering that it was the birthday of the person I love most in the world. Trying to make up for my lapse, I decided to bake her a cake. I forgot to grease the baking pan—and even forgot about the cake in the oven. It burned. That was when I decided to seek my source of healing: I went for a run.

Indeed, one of the collateral effects of this whole process has been my lack of discipline with running. After two weeks of training very little, I left home determined to run ten kilometers at a comfortable pace. Around the fifth kilometer, once my psychophysiological adjustment had reached an optimal level, something like a sudden click occurred—a return to my silence. The moment felt like an epiphany. It was the state of mind that emerges during my runs, allowing me once again to see myself from a level beyond the ordinary. The excess of information, stimuli, and social demands that make up our world contributes enormously to keeping us at an exceedingly shallow level of self-awareness. How can I adequately care for the people I meet during my clinical internship—especially considering that they are older adults—if I remain imprisoned by surfaces?

The question now confronting me is this: given the need to continue developing these socio-emotional skills—without which, for example, my work in Psychology would be impossible—and to offer the very best I have to everyone with whom I live and work, how can I once again make silence the governing principle of my life? This is the golden question that the great masters of our spiritual traditions have been asking for millennia, and it may be translated as follows: How can one preserve the desert within, amid the noises that insist on blinding us and making us prisoners of the ephemeral and the superficial?


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Arte/Art
DELACROIX, Eugène
The Women of Algiers (detail)
1834
Oil on canvas
Musée du Louvre, Paris



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