sexta-feira, 6 de junho de 2025

Em 06 de Junho de 2025 (Sexta). Durante a corrida: pensamentos e o silêncio // On June 6, 2025 (friday). During my run thoughts and silence

 


Às 16 horas, saí para dar início ao treino de corrida que planejei para hoje: 10 quilômetros em ritmo contínuo e moderado, no interior de um intervalo rítmico também previamente estipulado: entre 6 minutos e 6 minutos e 10 segundos por quilômetro, o que equivale a percorrer o trecho entre 1 hora e 1 hora, 01 minuto e 40 segundos. Quando dei início ao trajeto, sob um sol escaldante, aguardavam-me 5 quilômetros de subida (leve a moderada) – o trajeto de ida – e 5 quilômetros de descida (leve a moderada) – a volta. Em corridas de rua, no entanto, a métrica não é assim tão perfeita: inúmeras são as variações altimétricas do percurso. Dentre as variações do meu trajeto, cabe papel de destaque a uma íngreme e curta descida nos primeiros 400 metros, e a qual, na volta, mas agora nos últimos 400 metros, se transforma em uma longa e íngreme subida. Com efeito, uma distância não vale por si: a percepção subjetiva de esforço faz com que um mesmo trecho possa ser considerado longo ou curto, particularmente se o trecho em questão é uma rampa.

Correr é um exercício físico duro, mas suas extremidades são particularmente difíceis. 

Por motivos amplamente conhecidos pela ciência do exercício, os primeiros quilômetros tendem a ser muito desafiadores, especialmente para aqueles incautos que, como eu, tendem a falhar no aquecimento. A homeostase que o corredor necessita para ‘entrar em cruzeiro’ – expressão que tomo de empréstimo da linguagem da aviação – depende de (i) o organismo atingir uma capacidade ótima de captação do oxigênio pela musculatura, da (ii) liberação plena de hormônios que propiciam determinadas reações energéticas e de (iii) o fluxo sanguíneo e a condução elétrica atingirem a musculatura de forma abrangente, a ponto de proporcionar as contrações musculares de forma coordenada e eficiente. Ora, (i), (ii) e (iii) não são possíveis sem um tempo em atividade. Em linhas gerais, o que o organismo precisa para superar a dificuldade dos quilômetros iniciais é ‘aquecer o motor’. O ‘motor’ não aquece por tomada de decisão voluntária: nesse caso, ‘o caminho só se faz caminhando’. Tudo é muito difícil até o momento em que finalmente nos aproximamos da homeostase física e psíquica: nos primeiros quilômetros, o sistema cardiorrespiratório está em ajuste; a sensação de ‘falta de ar’ ou esforço excessivo se devem ao fato de o débito cardíaco e o VO2 aumentarem gradualmente. Os músculos estão ‘frios’ por conta do ainda baixo fluxo sanguíneo e da rigidez muscular: o metabolismo energético ainda depende mais de fontes anaeróbicas (como ATP e fosfocreatina). Há ainda o acúmulo transitório de metabólitos, o que explica o início de produção de lactato antes do equilíbrio aeróbico. Não poderia deixar de mencionar, há também fatores neurais, porquanto o sistema nervoso precisa ‘recrutar’ fibras musculares adequadas e sincronizar movimentos. Nesses quilômetros iniciais, nosso corpo está saindo do repouso para alta demanda, causando um desequilíbrio temporário entre oferta e consumo de oxigênio (‘débito de O₂’). Psicologicamente, é quando a motivação enfrenta a resistência inicial. A vontade de desistir e os pensamentos do tipo ‘o que estou fazendo aqui?’ não são raros; antes, e pelo menos no meu caso, são pensamentos intrusivos frequentes.

Por sua vez, os quilômetros finais são difíceis por outros motivos: (i) há um esgotamento energético, ou seja, as reservas de glicogênio muscular e hepático diminuem, reduzindo a glicose disponível. O corpo força a redução do ritmo. É possível minimizar essa movimentação natural do corpo se estivermos bem orientados em nutrição esportiva, e, destarte, capazes de fazer a reposição adequada durante a corrida. Ao (i) esgotamento energético se une o (ii) acúmulo de metabólitos: lactato, íons H⁺ (acidose) e amônia acumulam-se nos músculos, causando dor e inibindo contrações. Nos quilômetros finais, (iii) o calor gerado pela atividade reduz a eficiência enzimática e aumenta a percepção de esforço: trata-se do estresse térmico. A (i), (ii) e (iii), acrescenta-se (iv) a redução na sinalização do sistema nervoso central para proteger o corpo: a regulação central da fadiga promove fadiga neural. Em corridas longas, como as que costumo fazer, também ocorrem (v) microlesões nas fibras e inflamação e, como não pode deixar de ser, (vi) desidratação e perda de eletrólitos, o que compromete a função muscular e termorregulação. Em uma corrida – sobretudo a longa – o corpo atinge seus limites fisiológicos integrados, dentre os quais a depleção de energia, a toxicidade por metabólitos, o estresse oxidativo e o ‘muro mental’. A exigência psicológica é máxima para manter o ritmo. Este é o momento em que o corpo lança mão de seus estratagemas, de notável importância evolutiva, para fazer você parar e entrar em processo de desaleração.

Mesmo entre os corredores de elite, temos, no início, um quadro de crise de adaptação aguda, e, no final, um quadro de crise de sustentação sistêmica. Essas dificuldades são, portanto, inerentes ao corredor. No meu caso, e considerando uma corrida de 10 quilômetros, a fase inicial se encerra por volta do 3º quilômetro, e a fase final se estende pelos 2 últimos quilômetros.

Além das dificuldades listadas e universalmente distribuídas dos quilômetros iniciais – as que não discriminam amadores e profissionais –, há, no meu caso, a dificuldade imposta por meus ruídos e/ou barulhos internos. A sensação que tenho é a de que, assim que começo a movimentar o corpo, movimentam-se também meus pensamentos. Desordenadamente, surgem em cena, ressuscitando temores, medos, frustrações, rancores, expectativas e ansiedades. Um filtro automático e inconsciente entra em cena, e alguns dos pensamentos começam a se tornar mais prevalentes. Outros, de menor relevância, retornam para a escuridão do inconsciente. Eu sou a mistura de todos os pensamentos; com efeito, os diferentes espécimes de atos mentais que emergem durante a corrida representam minhas diferentes características: sou temeroso, medroso, frustrado, rancoroso, ‘expectativo’ e ansioso. Sou a soma de todas essas características, mas meu organismo ainda tende a ser (também sou esperançoso e determinado) mais especialmente modelado pela ansiedade. Prevalecem, durante as corridas, pensamentos ansiógenos. Pela associação dos pensamentos suscitados por medo e por ansiedade (sou medroso e ansioso), começo a ter medo de ter um ataque de pânico. Pela associação dos pensamentos de conteúdos neuróticos e ansiogênicos (sou neurótico e ansioso), começo a pensar em tudo o que tenho para resolver. Após a filtragem sistêmica e auto-organizada, são iluminados no palco da minha mente os conteúdos mentais associados ao que preciso fazer e resolver. Resoluções começam a surgir e, na mesma medida, sou alumiado por constatações de que os conteúdos sobre os quais me debrucei com tanta ansiedade não são – quando concebidos de perto – de difícil resolução. Na maior parte das vezes, sequer são problemas que demandem sofisticadas estratégias de resolução ou planejamento. E, por fim, começo gradualmente a perceber o pensamento que tende a ser atribuída a Mark Twain (não confirmei a autoria): “Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu”. Este é o momento em que ‘entro em cruzeiro’, em que, enfim, atinjo o equilíbrio homeostático. Meus ruídos dão espaço ao silêncio. Os pensamentos se revelam inúteis. Mais do que isso, prejudiciais. Se por acaso estou ouvindo música no aparelho celular, preso ao compartimento entre o peitoral e o queixo que tenho em minha mochila de corrida, sinto a urgência de desligar: a música se torna insuportável e prejudicial.

Estou então em silêncio. Os pensamentos dão espaço à contemplação do corpo, que se torna mais fluido, e da respiração, perfeita em sua associação com a frequência cardíaca. O organismo está atento aos buracos e saliências do solo e ao trânsito, mas está, ao mesmo tempo, destacado. O som dos carros vai para um segundo plano perceptivo. Estou pleno. Inteiro. Contemplo a grandiosidade da vida e o privilégio de ser humano. A solitude se me revela, em sua natureza sublime e temerosa, na linha do que afirmou Aldous Huxley em As portas da percepção: “Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. [...] Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares”. Vem à tona a silenciosa percepção do que dissera o Cardeal Robert Sarah em seu A força do silêncio:” Sons e emoções nos distanciam de nós mesmos, enquanto o silêncio sempre força o homem a refletir sobre sua própria vida [...] Neste inferno de ruído, o homem se desintegra e se perde; ele se fragmenta em inúmeras preocupações, fantasias e medos. Para sair desses túneis deprimentes, ele espera desesperadamente pelo ruído para que este lhe traga algum consolo. O ruído é um tranquilizante enganoso, viciante e falso. A tragédia do nosso mundo nunca é melhor resumida do que na fúria do ruído sem sentido que teimosamente odeia o silêncio”.

Alguns ruídos começam a aparecer nos 2 últimos quilômetros da corrida, mas não são mais os de outrora: são apenas os ‘gritos’ de um corpo que começa a dar sinais de fadiga e desgaste e estresse. A tirar pelo que já ouvi de outros corredores, amadores e profissionais, ambos os ruídos – os que aparecem no início e no fim das minhas corridas – também são universalmente distribuídos, embora a ciência do exercício pouco ou não tenha a dizer sobre sua natureza qualitativa.

A experiência do silêncio me preenche.

Ao refletir sobre a experiência da corrida, entranha-se cada vez mais em mim a convicção quanto à natureza supérflua da maior parte do que se diz. Questiono-me: por que razão abandonamos o silêncio e passamos a lançar mão de tanta comunicação desnecessária? Por que razão nossa natureza gregária encontrou refúgio na comunicação oral? Por que razão, com bem questionava o ancião indígena Lakota Dan a Kent Nerburn (Neither Wolf nor Dog: On Forgotten Roads with an Indian Elder), acreditamos que aprendemos falando? Por que razão “damos prêmios às crianças” e aos alunos “que mais falam”? Por que razão, em nossas “festas, todos tratam de falar”? Por que razão “no trabalho” estamos “sempre tendo reuniões nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes”, e chamamos isso “resolver um problema”? Por que razão, quanto estamos “numa habitação e há silêncio, todos ficam nervosos?” Por que razão precisamos “preencher o espaço com sons?” Por que razão famos “compulsivamente, mesmo antes de” sabermos “o que vamos dizer?”. Por que razão gostamos “de discutir?”. Inevitável me recordar do sentido expresso pelo taoísmo na recomendação atribuída a um texto de autoria anônima: “Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia)”.

A corrida tende a promover em mim esse complexo processo psíquico e físico. Naturalmente, a homeostase psíquica e humoral nem sempre é igual: afinal, os dias não são iguais; tampouco nós. Mas o encontro com silêncio é invariável. E também com a morte, que, silenciosamente, está sempre à espreita. Como Don Juan ensinou a Carlos Castañeda (Uma estranha realidade): “a morte o espreita e não lhe dará tempo de se agarrar a nada”, convidando-nos “a experimentar, sem ansiedade, tudo de todas as coisas [...] A morte é nossa eterna companheira. Está sempre à nossa esquerda, à distância de um braço atrás de nós.”. Ainda em Uma estranha realidade, Don Juan sintetiza seu ensinamento sobre a relação entre a morte e o silêncio: “Falamos incessantemente a nós mesmos sobre nosso mundo. De fato, mantemos nosso mundo com nossa conversa interna. E sempre que terminamos de falar a nós mesmos sobre nós mesmos, o mundo continua sempre como devia. Nós o renovamos, o animamos com vida, o sustentamos com nossa conversa interna. Não apenas isso, também escolhemos nossos caminhos quando conversamos com nós mesmos. Assim repetimos as mesmas escolhas até o dia em que morremos, porque ficamos repetindo a mesma conversa interna sempre, até o dia em que morremos. Um guerreiro está consciente disso e se esforça para silenciar sua conversa interna”.

É por ser uma experiência de silêncio e de morte que a corrida me capacita a – pleno e inteiro – contemplar a grandiosidade da vida e o privilégio de ser humano.


***

At four o'clock in the afternoon, I set out to begin the running workout I had planned for the day: ten kilometers at a continuous, moderate pace, within a previously established pace range of 6:00 to 6:10 minutes per kilometer, which corresponds to completing the distance in between one hour and one hour, one minute, and forty seconds. As I began the route, under a blazing sun, five kilometers of gradual uphill running awaited me—the outbound leg—followed by five kilometers of gradual descent on the return. Street running, however, is never quite so mathematically precise. Elevation changes are countless. Among the variations along my usual route, one deserves special mention: a short but steep downhill section during the first four hundred meters, which, on the return journey, becomes a long and steep climb over the final four hundred meters. A given distance, therefore, has no value in itself. The subjective perception of effort makes the very same stretch seem either long or short, especially when it consists of an incline.

Running is a demanding physical exercise, but its extremities are particularly difficult.

For reasons well established in exercise physiology, the opening kilometers tend to be especially challenging, particularly for those unsuspecting runners who, like me, have the unfortunate habit of neglecting a proper warm-up. The homeostasis required for a runner to "settle into cruise"—an expression I borrow from aviation—depends upon (i) the body reaching an optimal capacity to deliver oxygen to the working muscles; (ii) the full release of hormones responsible for supporting energetic reactions; and (iii) blood flow and neural conduction reaching the musculature broadly enough to produce coordinated and efficient muscular contractions. None of these processes occurs instantaneously. They all require time in motion. Broadly speaking, what the organism needs in order to overcome the difficulty of the opening kilometers is to "warm up the engine." The engine, however, does not warm up by an act of will. In this respect, the road is made only by walking. Everything is difficult until we finally approach both physical and psychological homeostasis. During the opening kilometers, the cardiorespiratory system is still adjusting; the sensation of breathlessness or excessive effort results from the gradual increase in cardiac output and oxygen uptake (VO₂). The muscles remain "cold" because blood flow is still limited and muscular stiffness persists. Energy metabolism continues to rely predominantly on anaerobic sources such as ATP and phosphocreatine. There is also a transient accumulation of metabolites, explaining the early production of lactate before aerobic equilibrium is established. Nor should we overlook neural factors. The nervous system must recruit the appropriate muscle fibers and synchronize movement. During these initial kilometers, the body is transitioning from rest to intense demand, creating a temporary imbalance between oxygen supply and oxygen consumption—the so-called oxygen deficit. Psychologically, this is also the stage at which motivation confronts its first resistance. Thoughts such as "What am I doing here?" and the desire to stop are by no means uncommon. On the contrary, at least in my own case, they are frequent intrusive thoughts. 

Conversely, the final kilometers are difficult for different reasons. (i) There is progressive energy depletion: muscle and liver glycogen stores decline, reducing the amount of glucose available to sustain the effort. The body naturally compels the runner to slow down. This physiological tendency can be mitigated through proper sports nutrition and, consequently, by adequate fueling during the run. To (i) energy depletion is added (ii) the accumulation of metabolic by-products: lactate, hydrogen ions (H⁺, associated with acidosis), and ammonia build up within the muscles, producing pain and inhibiting muscular contraction. During the closing kilometers, (iii) the heat generated by physical activity reduces enzymatic efficiency while simultaneously increasing the perceived level of exertion—what exercise physiology refers to as thermal stress. To (i), (ii), and (iii) must be added (iv) a reduction in the signaling output of the central nervous system, whose purpose is to protect the body: this central regulation of fatigue gives rise to neural fatigue. In longer runs, such as those I usually undertake, there also occur (v) microtears in muscle fibers accompanied by inflammation and, inevitably, (vi) dehydration together with electrolyte loss, both of which compromise muscular function and thermoregulation. In a run—particularly a long one—the body approaches the integrated limits of its physiology, including energy depletion, metabolite toxicity, oxidative stress, and the notorious "mental wall." At this stage, the psychological demand required merely to maintain one's pace reaches its highest point. It is precisely then that the body deploys its remarkably sophisticated evolutionary strategies to make you stop and enter a process of deceleration.

Even among elite runners, the beginning of a race is characterized by a crisis of acute adaptation, while its conclusion is marked by a crisis of systemic sustainability. These difficulties are therefore intrinsic to the act of running itself. In my own case, considering a ten-kilometer run, the initial phase usually comes to an end around the third kilometer, whereas the final phase encompasses approximately the last two kilometers.

Beyond the universally shared difficulties of the opening kilometers—those that make no distinction between amateurs and professionals—I must also contend with something deeply personal: my own internal noise. My impression is that, the moment my body begins to move, my thoughts begin moving as well. Disorderly, they emerge onto the stage of consciousness, resurrecting fears, anxieties, frustrations, resentments, expectations, and apprehensions. An automatic and unconscious filter immediately comes into operation. Some thoughts become increasingly prominent, while others, judged less relevant, retreat into the darkness of the unconscious. I am the sum of all these thoughts. Indeed, the various species of mental acts that emerge during a run express different dimensions of my own character. I am fearful, anxious, frustrated, resentful, expectant. I am the aggregate of all these traits. Yet my organism remains especially shaped by anxiety—although I am also hopeful and determined. Consequently, anxiety-provoking thoughts tend to dominate my runs. Because fear and anxiety reinforce one another—I am both fearful and anxious—I begin to fear that I may suffer a panic attack. Likewise, because neurotic and anxiety-laden thoughts reinforce each other—I am both neurotic and anxious—I begin thinking about everything I have yet to solve. Once this systemic and self-organizing filtering process has run its course, the mental contents associated with unfinished tasks and unresolved obligations are illuminated upon the stage of my mind. Solutions gradually begin to present themselves. At the same time, I realize that the matters over which I had expended so much anxiety are, upon closer inspection, rarely difficult to resolve. More often than not, they are not even problems requiring sophisticated strategies of planning or problem-solving. Finally, I gradually become aware of a saying commonly attributed to Mark Twain—although I have never verified its authorship: "I am an old man and have known a great many troubles, but most of them never happened." This is the moment when I finally settle into cruise, when I at last attain a state of homeostatic equilibrium. My internal noise gives way to silence. Thoughts reveal themselves to be not merely useless, but harmful. If I happen to be listening to music through the mobile phone stored in the chest compartment of my running vest, I feel an irresistible urge to turn it off. The music itself becomes unbearable. It becomes an obstacle.

I am now in silence. My thoughts give way to the contemplation of my body, which becomes more fluid, and of my breathing, now perfectly synchronized with my heart rate. My organism remains attentive to potholes, uneven pavement, and traffic, yet at the same time detached from them. The sound of passing cars recedes into the background of perception. I feel whole. Complete. I contemplate the grandeur of life and the privilege of being human. Solitude reveals itself to me in its sublime and awe-inspiring nature, much in the sense expressed by Aldous Huxley in The Doors of Perception: "We live together, we act on and react to one another; but always and in all circumstances we are by ourselves. [...] By its very nature every embodied spirit is doomed to suffer and enjoy in solitude. Sensations, feelings, insights, fancies—all these are private and, except through symbols and at second hand, incommunicable. We can pool information about experiences, but never the experiences themselves. From family to nation, every human group is a society of island universes." Alongside this comes the quiet realization of what Cardinal Robert Sarah wrote in The Power of Silence: "Noise and emotions distance us from ourselves, whereas silence always compels man to reflect upon his own life. [...] In this hell of noise, man disintegrates and loses himself; he fragments into countless worries, fantasies, and fears. To escape these depressing tunnels, he desperately hopes that noise will provide some consolation. Noise is a deceptive, addictive, and false sedative. The tragedy of our world is nowhere better summarized than in the fury of meaningless noise that stubbornly hates silence." Some internal noise begins to return during the final two kilometers of the run, but it is no longer the same as before. These are merely the cries of a body beginning to show the unmistakable signs of fatigue, wear, and physiological stress. From what I have heard from other runners, both amateur and professional, these two kinds of internal noise—the one that appears at the beginning of a run and the one that emerges near its end—also seem to be universally shared, although the science of exercise has had little, if anything, to say about their qualitative nature. The experience of silence fills me completely. Reflecting upon the experience of running, I become increasingly convinced of the superfluous character of most of what we say. I find myself asking: Why have we abandoned silence in favor of so much unnecessary communication? Why has our gregarious nature sought refuge in speech? Why do we believe, as the Lakota elder Dan asked Kent Nerburn in Neither Wolf nor Dog: On Forgotten Roads with an Indian Elder, that we learn by talking? Why do we reward the children—and the students—who speak the most? Why is it that, at our parties, everyone feels compelled to talk? Why, at work, are we constantly holding meetings in which everyone interrupts everyone else and speaks five, ten, a hundred times, calling this "solving a problem"? Why is it that, whenever there is silence in a house, everyone becomes uneasy? Why do we feel the need to fill space with sounds? Why do we speak compulsively, even before we know what we are going to say? Why do we enjoy arguing? I cannot help recalling the wisdom expressed in a Taoist maxim traditionally attributed to an anonymous source: "Think about what you are going to say before opening your mouth. Be brief and precise, for every time you utter a word, you release a portion of your Chi (life energy)."

Running tends to bring about within me this complex psychological and physiological process. Naturally, psychic and humoral homeostasis is never exactly the same: after all, no two days are alike, nor are we. Yet the encounter with silence is invariable. And so too is the encounter with death, which silently lies in wait at every moment. As Don Juan taught Carlos Castaneda in A Separate Reality: "Death is stalking you and will not give you time to cling to anything," thus inviting us "to experience everything fully, without anxiety." For, "Death is our eternal companion. It is always to our left, an arm's length behind us."

Later, in A Separate Reality, Don Juan distills his teaching on the relationship between death and silence: "We incessantly talk to ourselves about our world. In fact, we maintain our world with our internal dialogue. And whenever we finish talking to ourselves about ourselves, the world is always as it should be. We renew it, rekindle it with life, sustain it with our internal dialogue. Not only that, we also choose our paths as we talk to ourselves. Thus we repeat the same choices until the day we die, because we keep repeating the same internal dialogue until the day we die. A warrior is aware of this and strives to stop his internal dialogue."

It is precisely because running is an experience of silence and death that it enables me—whole and fully present—to contemplate the grandeur of life and the privilege of being human.


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Arte/Art
ROSA, Salvator
Self-Portrait as Philosopher of Silence
c. 1641
Oil on canvas, 116 x 94 cm
National Gallery, London



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