Desde minha adolescência, quando então me debrucei um
pouco mais sobre a vida política, sinto-me profundamente desconfortável com
discursos e posturas tradicionalmente associados tanto à direita quanto à
esquerda. Durante muito tempo interpretei esse desconforto como uma espécie de
indecisão intelectual ou incoerência prática. Como nunca tive apreço pela
leviandade – a qual se expressa sob a forma particularmente ruidosa de
ignorância que se manifesta em opiniões apressadas sobre temas complexos – preferi
(e ainda prefiro) o silêncio. Sempre me parecerá mais honesto permanecer calado
do que aderir superficialmente a uma posição que não conseguia abraçar
integralmente. Por isso me mantenho em silêncio sobre quase tudo.
No que diz respeito às relações entre ‘direita’ e
‘esquerda’, o estado de coisas não se alterou de maneira radical. Ainda hoje
encontro dificuldades para chegar a uma posição quando me pergunto sobre qual é
minha posição política. O que mudou foi minha compreensão acerca da própria
pergunta. Ao longo dos anos, sobretudo por meio da reflexão, da experiência e
da oração (prática a qual voltei desde que retornei ao seio da Igreja Católica),
comecei a perceber que o problema está no próprio horizonte dentro do qual
procuro me situar, e não em uma suposta incapacidade de escolher entre
alternativas disponíveis.
Por muito tempo aceitei, sem maior questionamentos, a
ideia de que a realidade política deveria necessariamente ser compreendida a
partir da oposição entre direita e esquerda. Como tantos outros, procurava
localizar-me em algum ponto desse espectro. Quando concordava com determinadas
teses associadas à direita, julgava-me conservador. Quando me sensibilizava com
preocupações tradicionalmente ligadas à esquerda, imaginava estar abandonando
posições anteriores. Como não poderia deixar de ser em um indivíduo cuja
tendência geral é a de criar raízes, o resultado era uma sensação permanente de
deslocamento.
Aos poucos, porém, comecei a suspeitar que a dificuldade
não decorria de uma oscilação entre polos opostos. Encontro-a, aos poucos, em
um locus mais fundamental: talvez minhas convicções mais profundas não
fossem inteiramente abarcadas por nenhuma dessas categorias.
Sou católico. Após um longo processo de retorno à fé,
reencontrei meu lugar no seio da Santa Igreja Católica. Essa experiência
modificou profundamente minha maneira de compreender não apenas a religião, mas
também a cultura, a sociedade e a política.
Eis como me vejo: antes de ser eleitor, sou católico.
Antes de nutrir simpatia por qualquer partido ou projeto de governo, sou
católico. Ressalto: estas afirmações não implicam, nem de longe, a compreensão
de que a religião deva ser convertida em programa partidário ou que a Igreja
possua soluções técnicas para todos os problemas políticos. Antes, significa
apenas reconhecer um fato elementar: toda reflexão política repousa sobre
determinada compreensão da pessoa humana, da liberdade, da justiça e do bem comum.
E a minha compreensão dessas realidades foi moldada por uma tradição
intelectual e espiritual que, em muitos séculos, antecede as divisões
ideológicas da modernidade.
Foi precisamente essa percepção que começou a alterar meu
olhar sobre o debate político contemporâneo.
A tradição cristã na qual me reconheço não nasceu das
revoluções modernas nem dos conflitos ideológicos dos séculos XIX e XX. Suas
raízes encontram-se em uma reflexão muito mais antiga acerca da condição humana
e da vida em sociedade. Nela, a política não ocupa o lugar supremo. Ela é
importante, necessária e inevitável, mas permanece subordinada a questões mais
fundamentais: o que é o ser humano? Em que consiste uma vida boa? O que
significa justiça? Qual é a finalidade da comunidade política?
Sob essa perspectiva, a pessoa humana não pode ser
reduzida a um indivíduo isolado e tampouco a uma simples peça de uma
coletividade. O ser humano é constitutivamente relacional. Existimos sempre em
comunhão: com nossas famílias, nossas comunidades, nossas tradições, nossos
amigos e, para aqueles que creem, com Deus, com Cristo, com Santa Maria. A
liberdade é um bem essencial, mas não é o único. A igualdade é um bem
essencial, mas também não é o único. Ambas encontram sentido dentro de uma
compreensão mais ampla da dignidade da pessoa humana e do bem comum.
Quando comecei a perceber isso, compreendi que meu
desconforto talvez não fosse um sinal de indecisão. Mais provavelmente, talvez seja
o resultado inevitável de tentar habitar uma tradição de pensamento cujas
perguntas fundamentais são anteriores às categorias políticas que hoje dominam
o debate público.
Quando olho para a direita, encontro valores que me são
caros. Encontro a valorização da família, o reconhecimento da importância das
tradições, a consciência de que a sociedade não pode sobreviver sem alguma
forma de continuidade histórica. Compartilho a desconfiança diante da crença de
que toda herança recebida constitui necessariamente uma forma de opressão ou de
que a identidade humana possa ser indefinidamente reconstruída segundo os
desejos de cada época.
Nesse aspecto, sinto-me próximo de uma intuição que se
estende de Aristóteles até muitos pensadores conservadores modernos: a de que a
vida humana floresce no interior de comunidades concretas, sustentadas por
hábitos, vínculos e instituições que não criamos inteiramente por nós mesmos.
Contudo, também encontro na direita contemporânea
elementos que me causam desconforto. Frequentemente percebo uma confiança
excessiva na lógica do mercado, como se a liberdade econômica pudesse, por si
só, resolver os problemas fundamentais da vida social. Em certas formulações, a
pobreza tende a ser interpretada quase exclusivamente como consequência de
escolhas individuais, enquanto as dimensões estruturais da exclusão são
minimizadas ou ignoradas.
Por outro lado, quando volto meu olhar para a esquerda,
encontro preocupações igualmente legítimas. Vejo sensibilidade diante do
sofrimento dos pobres, atenção às desigualdades sociais e a convicção de que
uma sociedade digna desse nome não pode abandonar os mais vulneráveis à própria
sorte. Essas preocupações não me são estranhas. Pelo contrário. Elas encontram
profunda ressonância em uma tradição que remonta aos profetas bíblicos,
atravessa os Padres da Igreja e alcança formulação sistemática na moderna Doutrina
Social da Igreja.
Foi justamente ao reencontrar essa tradição que comecei a
compreender melhor minha própria posição. Ao estudar o Papa Leão XIII,
especialmente a partir da Rerum Novarum, percebi que a Igreja recusava
tanto o socialismo revolucionário quanto o liberalismo econômico radical. Em Santo
Tomás de Aquino, encontrei a defesa da propriedade privada, mas também a
convicção de que os bens possuem uma destinação universal. Em São João Paulo II
encontrei uma vigorosa defesa da dignidade do trabalhador, acompanhada de uma
crítica simultânea ao coletivismo marxista e ao economicismo capitalista. No
Papa Bento XVI encontrei a insistência de que nenhuma ordem econômica pode
sobreviver sem fundamentos morais que ela própria é incapaz de produzir. Em
Chesterton, encontrei algo semelhante expresso em linguagem menos sistemática e
mais intuitiva. Sua crítica dirigia-se simultaneamente ao coletivismo e às
formas de capitalismo que concentravam poder econômico e enfraqueciam as
comunidades concretas. Dentre os tantos motivos que me levam a ser atraído à
sua obra, ressalto sua superação quanto à defesa de um modelo econômico
específico em prol da convicção de que uma sociedade humana depende de algo
mais profundo do que o mercado e mais estável do que o Estado: famílias,
pequenas comunidades, tradições compartilhadas e virtudes ordinárias.
Aos poucos fui percebendo que o desconforto que sentia
diante das categorias políticas contemporâneas não decorria da ausência de
convicções, mas da presença de convicções que provinham de outro lugar.
Talvez o autor que mais me ajudou a compreender minha
movimentação política e psicológica tenha sido Jacques Maritain. Em suas obras,
encontrei a tentativa de pensar a democracia, os direitos humanos, a liberdade
política e a justiça social a partir de uma antropologia cristã profundamente
influenciada por Santo Tomás de Aquino. Maritain recusava tanto o
individualismo liberal quanto os totalitarismos de seu tempo. Sua preocupação
consistia em encontrar uma ordem política capaz de reconhecer simultaneamente a
liberdade da pessoa e sua vocação para a vida em comunidade. Maritain me ajudou
a compreender filosoficamente esse deslocamento, e Chesterton, por sua vez,
ajudou-me a reconhecê-lo existencialmente. Sua obra transmite a impressão de
alguém que se recusava a aceitar a divisão do mundo entre alternativas
insuficientes. Talvez por isso continue sendo lido tanto por conservadores
quanto por reformistas sociais, sem pertencer inteiramente a nenhum dos dois
campos.
Algo semelhante pode ser encontrado, em contexto
brasileiro, na trajetória intelectual de Alceu Amoroso Lima. Sua obra reflete a
possibilidade de uma presença católica na vida pública que não se confunde nem
com o sectarismo ideológico nem com a submissão acrítica às modas intelectuais
de cada época.
Foi então que compreendi que meu problema nunca havia
sido escolher entre direita e esquerda. Eis o problema: tentar reduzir uma
tradição intelectual e espiritual muito mais ampla às categorias políticas
disponíveis no debate contemporâneo.
A partir dessa perspectiva, tanto a direita quanto a
esquerda passam a ser avaliadas por critérios que lhes são anteriores. A
dignidade da pessoa humana, a solidariedade, a subsidiariedade, a justiça
social, a responsabilidade moral, a família e o bem comum deixam de ser
propriedades exclusivas de qualquer campo ideológico; tornam-se, em seu lugar,
princípios a partir dos quais todos os projetos políticos devem ser julgados.
A reflexão política moderna costuma oscilar entre dois
polos. De um lado, encontramos teorias que partem do indivíduo e tendem a
compreender a sociedade como resultado da interação entre vontades
particulares. De outro, encontramos perspectivas que atribuem prioridade à
coletividade, concebendo o indivíduo sobretudo como membro de grupos, classes
ou identidades sociais.
Ambas captam aspectos reais da experiência humana. Ambas,
entretanto, parecem insuficientes quando absolutizadas.
A tradição filosófica e teológica à qual me sinto
vinculado sempre partiu de um pressuposto distinto: a pessoa humana é
simultaneamente singular e relacional. Não somos indivíduos isolados que
posteriormente estabelecem vínculos. Tampouco somos meras expressões de uma
coletividade que nos precede integralmente. Nossa identidade constitui-se no
interior de relações concretas, mas sem jamais ser absorvida por elas.
Tal compreensão possui profundas consequências políticas.
Com efeito, se a pessoa humana possui dignidade própria, ela não pode ser
instrumentalizada em nome de projetos coletivos, por mais nobres que pareçam.
Nenhuma revolução, nenhum partido, nenhuma causa histórica é autorizada a
sacrificar pessoas concretas em nome de promessas futuras.
Mas essa mesma compreensão impede que concebamos a
liberdade como simples autonomia individual. A pessoa floresce no interior de
uma comunidade. Dependemos de instituições, tradições, vínculos familiares,
associações civis, amizades e práticas compartilhadas que tornam possível uma
vida verdadeiramente humana.
Talvez seja precisamente nesse ponto que a noção de bem
comum adquira sua importância. De fato, o bem comum não corresponde à soma dos
interesses individuais nem à vitória de um grupo sobre outro. Tampouco se
identifica com a vontade circunstancial da maioria. Trata-se, antes, do
conjunto de condições que permite às pessoas e comunidades desenvolverem-se
segundo sua dignidade própria.
Essa concepção, presente em Aristóteles, aprofundada por Santo
Agostinho e sistematizada por Santo Tomás de Aquino, oferece uma alternativa
tanto ao individualismo quanto ao coletivismo, na medida em que nos recorda que
a política possui uma finalidade moral sem se converter em moralismo; que
existe para servir às pessoas sem se tornar refém de seus desejos imediatos; e
que deve promover a justiça sem pretender instaurar o paraíso na terra.
Talvez uma das maiores tentações da modernidade tenha
sido justamente transformar a política em uma espécie de religião secular. Chesterton
observou certa vez que o mundo moderno está repleto de virtudes cristãs
enlouquecidas. Essa formulação provocativa ilumina de maneira particular um
aspecto importante da vida política contemporânea. Muitas correntes ideológicas
preservam fragmentos autênticos da verdade moral, porém separados do conjunto
que lhes conferia equilíbrio. Algumas conservam a liberdade e esquecem a
solidariedade. Outras conservam a justiça social e esquecem a pessoa humana.
Outras ainda conservam a igualdade e esquecem a liberdade. Quando isoladas de
um horizonte mais amplo, essas verdades parciais tendem a converter-se em
caricaturas de si mesmas.
Direita e esquerda, em diferentes momentos históricos,
sucumbiram a essa tentação. Ambas produziram versões da crença segundo a qual a
salvação da sociedade dependeria da implementação correta de determinado
programa ideológico. Em alguns casos, o mercado assumiu funções quase
providenciais. Em outros, o Estado. Em outros ainda, a raça, a classe, a nação
ou a identidade.
O resultado costuma ser semelhante: a política deixa de
ser uma atividade prudencial voltada ao bem comum e converte-se em instrumento
de redenção histórica.
A tradição cristã sempre desconfiou profundamente dessa
expectativa.
Ela reconhece a importância da política, mas também seus
limites. Nenhuma instituição humana é capaz de eliminar definitivamente o
conflito, a injustiça ou a fragilidade constitutiva da condição humana. O
objetivo da política não é produzir uma sociedade perfeita, mas tornar possível
uma convivência mais justa, mais livre e mais humana.
Essa consciência dos limites talvez seja uma das virtudes
mais negligenciadas de nosso tempo. Em uma época marcada por polarizações
crescentes, somos constantemente pressionados a escolher entre narrativas
totais, entre projetos que pretendem explicar tudo e resolver tudo. No entanto,
quanto mais reflito sobre a experiência histórica, mais me convenço de que a
prudência é uma virtude política mais importante do que a certeza.
Talvez a maturidade política consista precisamente em
reconhecer que nenhuma ideologia possui o monopólio da verdade, que nenhum
partido coincide integralmente com o bem comum e que nenhuma geração tem o
direito de considerar-se o ponto culminante da história.
A política continua sendo necessária. Mas ela deve
permanecer em seu devido lugar: importante demais para ser ignorada e limitada
demais para ser idolatrada.
Talvez seja por isso que determinadas experiências
acadêmicas continuem a me causar desconforto.
A Universidade deveria ser, por excelência, o lugar do
debate racional, da crítica e do confronto respeitoso entre ideias. A atividade
intelectual autêntica pressupõe que nossas convicções possam ser submetidas ao
escrutínio dos outros. Sem contraditório, não há investigação genuína; há
apenas a reafirmação de consensos previamente estabelecidos.
Não me incomoda conviver com pessoas que pensam de
maneira diferente. Pelo contrário. Sempre considerei a divergência uma das
experiências mais fecundas da vida intelectual. O pensamento amadurece quando
encontra resistência. Argumentos tornam-se mais sólidos quando são confrontados
por objeções sérias.
O que me preocupa é um outro aspecto, a saber: a
crescente dificuldade de expressar determinadas posições sem que elas sejam
imediatamente convertidas em marcadores morais ou ideológicos.
Conheço professores, pesquisadores e estudantes de
esquerda cuja integridade intelectual admiro profundamente. Não é a eles que me
refiro. Refiro-me a uma tendência mais ampla, presente em diversos ambientes
acadêmicos contemporâneos, segundo a qual certas convicções passam a ser
tratadas não como hipóteses a serem discutidas, mas como pressupostos a serem
preservados.
Nesse contexto, o dissenso deixa gradualmente de ser
percebido como contribuição e passa a ser interpretado como ameaça.
Alexis de Tocqueville observou que as democracias
modernas podem produzir formas particularmente sutis de conformismo
intelectual. Nelas, a pressão não se exerce necessariamente pela força, mas
pelo desejo de pertencimento e pelo receio da desaprovação social. A liberdade
formal permanece intacta; o espaço efetivo para a divergência, porém, pode
tornar-se progressivamente mais estreito.
Talvez seja justamente esse fenômeno que me preocupe. Não
porque eu deseje substituir uma ortodoxia por outra, mas porque acredito que
nenhuma comunidade intelectual pode prosperar quando deixa de considerar o
contraditório uma condição da busca pela verdade.
Durante muito tempo imaginei que a maturidade política
consistisse em encontrar finalmente o lugar correto dentro do mapa ideológico
de meu tempo. Hoje suspeito que a tarefa seja outra.
Talvez a maturidade consista em reconhecer que nenhum
mapa político coincide perfeitamente com a realidade humana. Direita e esquerda
continuarão existindo, e provavelmente continuarão oferecendo contribuições
importantes para a vida pública. Mas nenhuma delas esgota as exigências da
verdade, da justiça ou do bem comum.
Se continuo a sentir-me parcialmente estrangeiro em ambos
os campos, já não interpreto isso como uma deficiência. Trata-se, antes, da
consequência natural de uma fidelidade que se encontra alhures.
Minha pátria intelectual não é uma ideologia; é, afirmo
com orgulho, uma tradição. Talvez Santo Agostinho tenha percebido essa tensão
melhor do que ninguém. Vivemos inevitavelmente na cidade dos homens,
participamos de suas instituições, disputas e responsabilidades. Mas nenhum
arranjo político é capaz de satisfazer plenamente as aspirações mais profundas
do espírito humano. A política permanece necessária; apenas não é última.
Uma tradição que me ensinou que a pessoa humana vale mais
do que o Estado, mais do que o mercado, mais do que o partido e mais do que
qualquer projeto histórico. Uma tradição que me ensinou que a política é
importante, mas não suprema; necessária, mas não salvífica; indispensável, mas
incapaz de responder sozinha às perguntas mais profundas da existência humana.
Talvez seja por isso que eu continue caminhando entre os
campos ideológicos de meu tempo sem me sentir plenamente pertencente a nenhum
deles.
E talvez, afinal, isso não seja um problema a ser
resolvido.
Nada disso elimina a necessidade de escolhas concretas. A
política continua sendo o campo das decisões imperfeitas, tomadas em
circunstâncias históricas específicas e entre alternativas sempre limitadas.
Por essa razão, não excluo a possibilidade de que, diante
das opções efetivamente disponíveis, eu venha a votar novamente em Luiz Inácio
Lula da Silva. Não porque me identifique integralmente com sua visão de mundo
ou com o conjunto das posições defendidas por seu campo político. Como procurei
mostrar ao longo destas reflexões, minhas convicções fundamentais encontram-se
enraizadas em uma tradição anterior e mais ampla do que as categorias habituais
da política contemporânea.
Ainda assim, a escolha eleitoral raramente consiste em
encontrar um representante perfeito de nossas convicções. Frequentemente
trata-se de identificar, entre alternativas concretas, aquela que melhor
preserva determinados bens políticos e institucionais que julgamos
indispensáveis.
É precisamente nesse ponto que minha distância em relação
ao bolsonarismo se torna mais evidente. Embora reconheça que parte de seu
eleitorado seja movida por preocupações legítimas — muitas delas relacionadas à
segurança, à corrupção, à preservação de valores culturais e à crítica de
certos excessos ideológicos presentes na vida pública — não consigo enxergar na
família Bolsonaro uma representação qualificada da tradição política que
costumo associar à direita.
Ao contrário. Tenho a impressão de que o bolsonarismo
contribuiu para empobrecer intelectualmente o debate público, substituindo
frequentemente a reflexão por slogans, a prudência pela polarização permanente
e a construção institucional pela mobilização afetiva. Mais do que isso,
considero que determinados episódios de nossa história recente revelaram uma
disposição preocupante de subordinar os interesses permanentes da nação às
conveniências de um projeto personalista de poder.
Por essa razão, não consigo enxergar o bolsonarismo como
um representante legítimo de uma direita séria, institucional e
intelectualmente responsável. Minha impressão é que prestaram um desserviço à
própria ideia de direita no Brasil, associando-a a formas de comportamento
político que pouco têm a ver com as melhores tradições conservadoras, liberais
ou democrata-cristãs.
Talvez isso explique por que me sinto, hoje, mais próximo
de determinadas figuras da esquerda democrática do que de setores
significativos da direita contemporânea. Não se trata de uma adesão ideológica,
mas de um juízo prudencial diante das circunstâncias presentes.
Curiosamente, no entanto, quanto mais reflito sobre a
questão política, mais me vejo atraído por instituições que transcendem a
lógica da disputa partidária permanente. Não afirmo isso como proposta imediata
para o Brasil nem como solução mágica para nossos problemas. Trata-se antes de
uma simpatia intelectual crescente. Não se trata de nostalgia histórica nem de
rejeição da democracia. O que está em jogo aqui é minha percepção de que
algumas instituições conseguem simbolizar a continuidade da comunidade política
para além das alternâncias partidárias.
A monarquia, especialmente em suas formas constitucionais
modernas, parece-me recordar uma verdade frequentemente esquecida pelas
democracias contemporâneas: a de que a ordem política não se reduz à competição
pelo poder. Ela necessita também de continuidade histórica, símbolos
compartilhados, estabilidade institucional e de uma referência capaz de
representar a unidade nacional para além das divisões partidárias.
Talvez seja apenas uma inclinação teórica. Talvez seja
algo mais do que isso. Ainda não sei.
O que sei é que me sinto cada vez menos interessado em
definir minha identidade a partir dos alinhamentos ideológicos do presente e
cada vez mais interessado em compreender quais instituições, valores e
tradições favorecem o florescimento humano, a liberdade responsável, a justiça
social e o bem comum.
Se há uma conclusão a que cheguei depois de tantos anos de inquietação, ela é relativamente simples: minha fidelidade não pertence à direita nem à esquerda. Pertence a uma compreensão da pessoa humana que considero anterior a ambas. E talvez seja precisamente por isso que eu continue caminhando entre esses campos sem me instalar definitivamente em nenhum deles.
Ever since my adolescence, when I first began
to take a more serious interest in political life, I have felt deeply
uncomfortable with the discourses and attitudes traditionally associated with
both the political right and the political left. For a long time, I interpreted
this discomfort as a form of intellectual indecision or practical
inconsistency. Since I have never had much regard for frivolity—particularly
the noisy kind of ignorance that expresses itself through hasty opinions on
complex matters—I preferred, and still prefer, silence. It has always seemed
more honest to remain silent than to embrace superficially a position that I
could not wholeheartedly affirm. For that reason, I remain silent about almost
everything.
As far as the relationship between the
"right" and the "left" is concerned, little has
fundamentally changed. Even today I find it difficult to answer the question of
where I stand politically. What has changed, however, is my understanding of
the question itself. Over the years, especially through reflection, experience,
and prayer—a practice to which I returned after coming back to the bosom of the
Catholic Church—I gradually came to realize that the problem lies not in some
inability to choose among the available alternatives, but rather in the very
horizon within which I have been attempting to situate myself.
For many years I accepted, without much
questioning, the assumption that political reality must necessarily be
understood through the opposition between right and left. Like so many others,
I tried to locate myself somewhere along that spectrum. Whenever I agreed with
positions commonly associated with the right, I considered myself conservative.
Whenever I found myself moved by concerns traditionally identified with the
left, I imagined that I was abandoning my previous convictions. Since I have
always had a natural inclination to put down roots rather than drift, the
inevitable result was a persistent feeling of displacement.
Gradually, however, I began to suspect that my
difficulty did not arise from oscillating between two opposing poles. Instead,
I discovered it in a more fundamental locus: perhaps my deepest convictions
simply could not be fully contained within either of those categories.
I am a Catholic.
After a long journey back to the faith, I found
my home once again within the Holy Catholic Church. That experience profoundly
transformed the way I understand not only religion, but also culture, society,
and politics.
This is how I now understand myself: before I
am a voter, I am a Catholic. Before I sympathize with any political party or
governmental project, I am a Catholic. Let me be clear: this does not imply,
even remotely, that religion should be transformed into a partisan political
program or that the Church possesses technical solutions to every political
problem. Rather, it simply acknowledges an elementary fact: every political
philosophy ultimately rests upon a particular understanding of the human person,
freedom, justice, and the common good. My own understanding of these realities
has been shaped by an intellectual and spiritual tradition that predates the
ideological divisions of modernity by many centuries.
It was precisely this realization that began to
transform the way I viewed contemporary political debate.
The Christian tradition within which I
recognize myself did not emerge from the revolutions of modernity nor from the
ideological conflicts of the nineteenth and twentieth centuries. Its roots lie
in a far older reflection on the human condition and the nature of life in
society. Within that tradition, politics does not occupy the highest place. It
is important, necessary, and unavoidable, but it remains subordinate to more
fundamental questions: What is the human being? What constitutes a good life?
What is justice? What is the ultimate purpose of the political community?
From this perspective, the human person cannot
be reduced either to an isolated individual or to a mere component of a
collective whole. Human beings are constitutively relational. We always exist
in communion—with our families, our communities, our traditions, our friends,
and, for those who believe, with God, with Christ, and with the Blessed Virgin
Mary. Freedom is an essential good, but it is not the only one. Equality is
likewise an essential good, but neither is it the highest one. Both derive their
meaning within a broader understanding of the dignity of the human person and
the common good.
When I began to see this more clearly, I
realized that my discomfort was perhaps not a sign of indecision after all.
More likely, it was the inevitable consequence of trying to inhabit a tradition
of thought whose fundamental questions precede the political categories that
dominate public debate today.
When I look to the political right, I find
values that I hold dear. I find an appreciation for the family, a recognition
of the importance of tradition, and an awareness that society cannot survive
without some degree of historical continuity. I share the suspicion toward the
belief that every inherited tradition necessarily constitutes a form of
oppression, or that human identity can be endlessly reconstructed according to
the desires of each successive age.
In this respect, I find myself close to an
intuition that extends from Aristotle to many modern conservative thinkers:
namely, that human life flourishes within concrete communities, sustained by
habits, relationships, and institutions that we did not entirely create for
ourselves.
Yet I also find elements within the
contemporary right that leave me uneasy. I frequently perceive an excessive
confidence in the logic of the market, as though economic freedom alone could
resolve the fundamental problems of social life. In certain formulations,
poverty is interpreted almost exclusively as the consequence of individual
choices, while the structural dimensions of exclusion are minimized or ignored.
When I turn my attention to the left, on the
other hand, I encounter concerns that are equally legitimate. I see a genuine
sensitivity to the suffering of the poor, an awareness of social inequality,
and the conviction that no society worthy of the name can abandon its most
vulnerable members to their fate. These concerns are by no means foreign to me.
On the contrary, they resonate deeply with a tradition that stretches from the
biblical prophets, through the Fathers of the Church, and finds systematic expression
in the modern Social Doctrine of the Church.
It was precisely by rediscovering that
tradition that I came to understand my own position more clearly. As I studied
Pope Leo XIII—especially through Rerum Novarum—I realized that the Church
rejected both revolutionary socialism and radical economic liberalism. In Saint
Thomas Aquinas, I found a defense of private property together with the
conviction that material goods possess a universal destination. In Saint John
Paul II, I encountered a vigorous defense of the dignity of labor, accompanied
by an equally vigorous critique of both Marxist collectivism and capitalist
economism. In Pope Benedict XVI, I found the insistence that no economic order
can survive without moral foundations that it is itself incapable of producing.
In G. K. Chesterton, I encountered much the
same vision, expressed in a less systematic but more intuitive language. His
critique was directed simultaneously against collectivism and against those
forms of capitalism that concentrate economic power while weakening concrete
communities. Among the many reasons I find his work so compelling, I would
emphasize his refusal to defend any particular economic model as an end in
itself. Instead, he consistently maintained that a genuinely human society
depends upon realities far deeper than the market and far more enduring than
the state: families, small communities, shared traditions, and the ordinary
virtues of everyday life.
Gradually, I came to realize that my discomfort
with contemporary political categories did not stem from a lack of convictions,
but from the presence of convictions whose source lay elsewhere.
Perhaps the author who has helped me most to
understand both my political and my psychological orientation is Jacques
Maritain. In his writings, I found an attempt to think about democracy, human
rights, political freedom, and social justice from within a Christian
anthropology profoundly shaped by Saint Thomas Aquinas. Maritain rejected both
liberal individualism and the totalitarianisms of his age. His central concern
was to articulate a political order capable of recognizing simultaneously the
freedom of the human person and the person's vocation to life in community.
Maritain helped me understand this displacement philosophically, while
Chesterton helped me recognize it existentially. His work conveys the
impression of a man who refused to accept a world divided between inadequate
alternatives. Perhaps this explains why he continues to be read by both
conservatives and social reformers without belonging entirely to either camp.
Something similar may be found, in the
Brazilian context, in the intellectual trajectory of Alceu Amoroso Lima. His
work demonstrates the possibility of a genuinely Catholic presence in public
life—one that is neither confused with ideological sectarianism nor reduced to
an uncritical submission to the prevailing intellectual fashions of each
generation.
It was then that I realized that my problem had
never been one of choosing between the political right and the political left.
The real problem was attempting to compress a far broader intellectual and
spiritual tradition into the political categories available in contemporary
public discourse.
From this perspective, both the right and the
left come to be evaluated according to standards that precede them. The dignity
of the human person, solidarity, subsidiarity, social justice, moral
responsibility, the family, and the common good cease to be the exclusive
property of any ideological camp. Instead, they become the principles by which
every political project ought to be judged.
Modern political thought has tended to
oscillate between two poles. On the one hand are theories that begin with the
individual and understand society primarily as the outcome of interactions
among autonomous wills. On the other are perspectives that give priority to the
collective, conceiving the individual chiefly as a member of groups, classes,
or social identities.
Both capture genuine aspects of human
experience. Yet both appear insufficient once they are absolutized.
The philosophical and theological tradition to
which I feel bound has always begun from a different premise: the human person
is at once unique and relational. We are neither isolated individuals who
subsequently establish relationships, nor mere expressions of a collective that
wholly precedes and absorbs us. Our identity is constituted within concrete
relationships, yet without ever being dissolved into them.
This understanding carries profound political
consequences. If the human person possesses an intrinsic dignity, then no one
may be instrumentalized in the service of collective projects, however noble
they may appear. No revolution, no political party, no historical cause is
justified in sacrificing concrete persons for the sake of future promises.
At the same time, this very understanding
prevents us from conceiving freedom as mere individual autonomy. The human
person flourishes within a community. We depend upon institutions, traditions,
family bonds, civic associations, friendships, and shared practices that make a
genuinely human life possible.
Perhaps it is precisely here that the notion of
the common good acquires its deepest significance. The common good is not the
sum of individual interests, nor the victory of one group over another. Neither
is it identical with the contingent will of the majority. Rather, it is the set
of conditions that enables both persons and communities to flourish according
to their inherent dignity.
Present in Aristotle, deepened by Saint
Augustine, and systematically developed by Saint Thomas Aquinas, this
conception offers an alternative to both individualism and collectivism. It
reminds us that politics has a moral purpose without degenerating into
moralism; that it exists to serve persons without becoming captive to their
immediate desires; and that it ought to promote justice without pretending to
establish paradise on earth.
Perhaps one of modernity's greatest temptations
has been precisely to transform politics into a kind of secular religion.
Chesterton once observed that the modern world is filled with Christian virtues
gone mad. That provocative formulation sheds particular light on an important
aspect of contemporary political life. Many ideological movements preserve
authentic fragments of moral truth, yet detached from the larger whole that
originally gave them balance. Some preserve freedom while forgetting solidarity.
Others preserve social justice while forgetting the human person. Still others
preserve equality while forgetting freedom. Once severed from a broader
horizon, these partial truths tend to become caricatures of themselves.
Both the right and the left have, at different
moments in history, succumbed to this temptation. Each has produced versions of
the belief that society's salvation depends upon the correct implementation of
a particular ideological program. In some cases, the market has assumed almost
providential functions; in others, the state; and in still others, race, class,
nation, or identity.
The result is often the same: politics ceases
to be a prudential activity ordered toward the common good and becomes instead
an instrument of historical redemption.
The Christian tradition has always regarded
such expectations with profound suspicion.
It recognizes the importance of politics, but
it also recognizes its limits. No human institution is capable of definitively
eliminating conflict, injustice, or the constitutive fragility of the human
condition. The purpose of politics is not to produce a perfect society, but to
make possible a form of common life that is more just, more free, and more
genuinely human.
Perhaps this awareness of limits is among the
most neglected virtues of our age. In a time marked by increasing polarization,
we are constantly pressured to choose between comprehensive narratives, between
projects that claim to explain everything and solve everything. Yet the more I
reflect upon historical experience, the more convinced I become that prudence
is a greater political virtue than certainty.
Political maturity, perhaps, consists precisely
in recognizing that no ideology possesses a monopoly on truth, that no
political party fully embodies the common good, and that no generation has the
right to regard itself as the culmination of history.
Politics remains necessary. But it must remain
in its proper place: too important to be ignored, yet too limited to be
idolized.
Perhaps this explains why certain academic
experiences continue to leave me uneasy.
The university ought to be, above all else, the
place of rational debate, critical inquiry, and respectful confrontation
between competing ideas. Genuine intellectual activity presupposes that our
convictions may be subjected to the scrutiny of others. Without disagreement,
there is no authentic inquiry; there is only the reaffirmation of preexisting
consensus.
I have never been troubled by living or working
alongside people who think differently from me. Quite the contrary. I have
always regarded disagreement as one of the most fruitful experiences of
intellectual life. Thought matures through resistance. Arguments become
stronger when confronted by serious objections.
What concerns me is something different: the
growing difficulty of expressing certain positions without their being
immediately transformed into moral or ideological labels.
I know professors, researchers, and students on
the political left whose intellectual integrity I deeply admire. They are not
the object of my concern. Rather, I am referring to a broader tendency,
increasingly present in many contemporary academic environments, according to
which certain convictions cease to be treated as hypotheses open to discussion
and instead become assumptions to be protected.
In such a climate, dissent gradually ceases to
be regarded as a contribution and comes instead to be perceived as a threat.
Alexis de Tocqueville observed that modern
democracies are capable of producing particularly subtle forms of intellectual
conformity. In such societies, pressure is exerted not primarily through force,
but through the desire to belong and the fear of social disapproval. Formal
freedom remains intact, yet the effective space for genuine disagreement may
become progressively narrower.
It is precisely this phenomenon that concerns
me. Not because I wish to replace one orthodoxy with another, but because I
believe that no intellectual community can flourish once it ceases to regard
contradiction as an indispensable condition for the pursuit of truth.
For many years I imagined that political
maturity consisted in finally discovering the correct place for oneself within
the ideological map of one's own age. Today I suspect that the task is a
different one.
Perhaps maturity consists in recognizing that
no political map perfectly corresponds to the reality of the human condition.
The right and the left will continue to exist, and they will probably continue
to make important contributions to public life. Yet neither exhausts the
demands of truth, justice, or the common good.
If I continue to feel, at least in part, a
stranger in both camps, I no longer interpret this as a deficiency. Rather, it
is the natural consequence of a deeper fidelity.
My true intellectual homeland is not an
ideology. It is, I say with conviction, a tradition.
Perhaps Saint Augustine understood this tension
better than anyone. We inevitably live within the City of Man; we participate
in its institutions, its conflicts, and its responsibilities. Yet no political
arrangement is capable of fully satisfying the deepest aspirations of the human
spirit. Politics remains necessary—but it is never ultimate.
It is a tradition that has taught me that the
human person is worth more than the State, more than the market, more than any
political party, and more than any historical project. It has taught me that
politics is important, but not supreme; necessary, but not salvific;
indispensable, yet incapable, by itself, of answering the deepest questions of
human existence.
Perhaps that is why I continue to walk among
the ideological camps of my own time without ever feeling entirely at home in
any of them.
And perhaps, after all, that is not a problem
to be solved.
None of this eliminates the need to make
concrete political choices. Politics remains the realm of imperfect decisions,
made under specific historical circumstances and among alternatives that are
always limited.
For that reason, I do not rule out the
possibility that, given the options actually available, I may once again vote
for Luiz Inácio Lula da Silva. This is not because I fully identify with his
worldview or with the entire range of positions defended by his political camp.
As I have sought to demonstrate throughout these reflections, my deepest
convictions are rooted in a tradition that is both older and broader than the
categories that ordinarily structure contemporary political life.
Even so, electoral choice rarely consists in
finding a candidate who perfectly embodies our convictions. More often, it
involves identifying, among the available alternatives, the one that best
preserves certain political and institutional goods that we regard as
indispensable.
It is precisely at this point that my distance
from Bolsonarism becomes most evident. Although I recognize that many of its
supporters are motivated by legitimate concerns—among them public security,
corruption, the preservation of cultural values, and criticism of certain
ideological excesses in public life—I do not see the Bolsonaro family as
providing a qualified representation of the political tradition I normally
associate with the right.
On the contrary, I have the impression that
Bolsonarism has contributed to the intellectual impoverishment of public
debate, frequently replacing reflection with slogans, prudence with permanent
polarization, and institution-building with emotional mobilization. More than
that, I believe that certain episodes in Brazil's recent history have revealed
a troubling willingness to subordinate the nation's enduring interests to the
conveniences of a personalistic project of political power.
For this reason, I cannot regard Bolsonarism as
a legitimate representative of a serious, institutional, and intellectually
responsible political right. My impression is that it has done a disservice to
the very idea of conservatism in Brazil by associating it with forms of
political behavior that bear little resemblance to the finest conservative,
liberal, or Christian democratic traditions.
Perhaps this explains why, today, I feel closer
to certain figures within the democratic left than to significant sectors of
the contemporary right. This does not reflect an ideological conversion but
rather a prudential judgment in light of present circumstances.
Curiously, however, the more I reflect on
political questions, the more I find myself drawn to institutions that
transcend the logic of permanent partisan competition. I do not present this as
an immediate proposal for Brazil, nor as a magical solution to our problems.
Rather, it reflects a growing intellectual sympathy. It is neither an
expression of historical nostalgia nor a rejection of democracy. What is at
stake is my growing conviction that certain institutions are capable of
symbolizing the continuity of the political community beyond the alternation of
parties in power.
The monarchy, especially in its modern
constitutional forms, seems to remind us of a truth that contemporary
democracies too often forget: political order cannot be reduced to competition
for power. It also requires historical continuity, shared symbols,
institutional stability, and an authority capable of representing national
unity beyond partisan divisions.
Perhaps this is merely a theoretical
inclination. Perhaps it is something more. I do not yet know.
What I do know is that I find myself
increasingly less interested in defining my identity according to the
ideological alignments of the present and increasingly more interested in
understanding which institutions, values, and traditions best foster human
flourishing, responsible freedom, social justice, and the common good.
If there is one conclusion I have reached after
so many years of reflection, it is a relatively simple one: my deepest loyalty
belongs neither to the political right nor to the political left. It belongs to
an understanding of the human person that I believe precedes them both. And
perhaps it is precisely for that reason that I continue to walk between these
two camps without ever feeling entirely at home in either of them.

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