domingo, 12 de julho de 2026

Em 12 de Julho de 2026 (domingo) Marcolino // On July 12, 2026 (sunday) Marcolino

 


 

“Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu”

Renato Russo

 

Uma das épocas mais felizes de vida foi o momento em que, no início dos anos 1990, fazia a transição de minha infância para a adolescência. O meu universo era simples: não havia muita coisa em minha mente para além dos amigos, o futebol e as primeiras paixões. No ano de 1992, tive a oportunidade de me mudar de um prédio em que só havia eu e meu irmão para um prédio repleto de moleques da nossa idade, sendo que alguns dos quais frequentavam a mesma escola que eu e meu irmão frequentávamos desde a mais tenra infância.

Tive a oportunidade de começar a andar sozinho nesse período, e tive a oportunidade de fazer os primeiros amigos que tive na vida. Relações que pareciam tão fortes, e, no entanto, e como é de se esperar, não ficou ninguém. Como sempre é. Mas, naquele momento, eram, para mim, os melhores amigos da vida inteira. Tive a oportunidade de frequentar o Tijuca Tênis Clube, onde foi fomentado o grande prazer que tinha pelo futebol, o primeiro beijo, as aulas de natação etc. Ainda que eu gostasse muito do clube, o local em que eu realmente me sentia em casa, no entanto, era o prédio. Éramos, os meninos, como irmãos. Eu não tinha medo ou receio. Não havia possibilidade de bullying. Não havia meninos mais velhos maldosos. Era o local em que eu e meu irmão estávamos protegidos. Muitas foram as relações que mantive com moradores e com os porteiros do prédio. Algumas, boas; outras, ruins. As relações ruins eram quase todas por minha culpa; meu nível de agitação e de euforia era, para alguns, insuportável. Após uma primeira infância solitária, passava a conviver com muitos moleques da minha idade: começava a me sentir gente.

Relembro-me do Marcolino, um dos faxineiros do prédio.

Marcolino foi um faxineiro e substituto eventual dos porteiros e vigias. Provavelmente por sua incapacidade de manter uma postura mais austera, ou talvez por suas (severas, creio eu) limitações cognitivas, Marcolino não foi promovido à categoria de porteiro. Marcolino não seria aprovado como porteiro (ou garçom) pela burguesia tijucana de classe média. Em primeiro lugar, Marcolino era um negro muito alto, magro e deselegante para os padrões que os burgueses esperam de seus serviçais; era desdentado; além de muito magro e curvado, não conseguia ter deferência no linguajar ou no vestuário.

Marcolino era um daqueles velhos malandros que são cada vez mais raros no Rio de Janeiro. Sua fala era rasgada; só depois de muita convivência é que conseguíamos entender o que dizia; mais do que isso, conseguíamos entender que suas palavras não eram bem concatenadas entre si: Marcolino proferia umas palavras desconexas que só faziam sentido em sua cabeça repleta de cachaça. Era um zé pilintra, e mantinha aquele estilo que alguém de fora do Rio de Janeiro não acredita existir fora do carnaval.

Não sei se Marcolino tinha 50 ou 80 anos entre os anos de 1992 e 1995. Estou certo, no entanto, de que Marcolino é hoje falecido, a tirar pela equação entre os tantos anos em que o vi pela última vez associado com a compleição física que tinha então: ‘Que Deus o tenha’. Mas, sempre que me lembro de Marcolino, e concedendo-me licença poética para uma heresia, vejo-o vagando pelas encruzilhadas da Tijuca, feliz, bebendo cachaça e fumando. Esse é o Marcolino. A morte não pode redimi-lo. Marcolino é um exu. Ele não será capaz de um dia cultivar violetas na janela. Marcolino não tocará harpa. Marcolino não orientará espíritos perdidos. No máximo, Marcolino está tocando pandeiro. Marcolino é um espírito estável. Não é capaz de evoluir ou regredir. Marcolino é um anjo pronto: não consigo vislumbrá-lo senão como o velho malandro tão afim a nós, as crianças, os púberes, os moleques cariocas.

Marcolino era dado ao álcool. Não raro, chegava ao trabalho completamente embriagado. Para nós, os moleques, isso não fazia a menor diferença. Não podia haver um camarada mais ‘gente boa’ que aquele malandro. O velho Marcolino era leve como uma pluma.

Era o nosso torcedor. Era feliz na convivência com a molecagem. Nós, os moleques, nos considerávamos os verdadeiros craques da bola. E o Marcolino, talvez de maneira inconsciente, ou então por meio da consciência que só os anjos possuem, fomentava nossos sonhos. Enquanto passávamos com nossas bolas de futebol, e eu com meu sonho de um dia ser um craque da bola, Marcolino, com sua risada desdentada, dizia, com sua alegria natural e com sua postura de malandro: ‘Pelé, Didi, Zagalo, Vavá, Pepe, Romário’, cada nome correspondendo a um de nós. Não entendíamos nada dessa sua escalação imaginária de jogadores de diferentes tempos históricos. Acho que ele não conhecia os craques da época, senão o Romário. Ele nem deixava claro quem era quem naquela sua escalação imaginária, que às vezes misturava Pelé com Zico. Na verdade, entendíamos o que Marcolino estava dizendo pelo menos por causa de nomes tais como Zico (obviamente, Marcolino era flamenguista), Pelé e Garrincha. Essas cenas eram desprovidas de qualquer relevância social. Não éramos recíprocos a essa conversa risonha que Marcolino no fundo tinha com ele mesmo. Era uma espécie de grande vovô se divertindo consigo mesmo e sem a pretensão de nos fazer entendê-lo.

Certa vez, eu criei um tumulto imenso na portaria. Tenho, dentro de mim, uma grande agressividade. Não era diferente naquele momento. Eu queria brigar com alguém. Nem me lembro quem comecei a perturbar. De repente, numa daquelas noites em que Marcolino substituía o vigia, ele tira um desses livros de autoajuda da gaveta da mesa da portaria, olha para nós e, sem qualquer referência explícita às confusões que armávamos, leu, com a voz cantada do malandro, e para si mesmo, o título: “O mais importante é o verdadeiro amor”. Naquele momento, todas as querelas cessaram. Lembro-me de ter sido retirado da posição em que estava, pela força do humor descompromissado e simples do velho Marcolino. Eu duvido que Marcolino andou alguma página daquele livro, mas aquele material serviu para alguma coisa. Esse é o Marcolino.

Lembro-me com tristeza do único dia em que vi Marcolino triste, ainda que sua dor só fosse transmitida por certa reticência de seu olhar: refiro-me ao dia em que, por engano, balearam e mataram seu filho. Claro que, do alto de meus 12, 13 anos, fui incapaz de perceber, como hoje, a significação daquela dor. E, como um púbere, não pude mesmo perceber: no dia seguinte, Marcolino era o Marcolino de sempre. Com seus maneirismos da favela, com sua malemolência, Marcolino era de novo o nosso amigão, o malandro que não dizia nada com nada. O malandro para quem eu gostava de eventualmente levar as balas que eu furtava nas lojas americanas. Ao dividir as balas com o Marcolino, ele se tornava meu cúmplice. Eu era de fato muito louco: era dado a brincadeiras de brigas, inclusive com os porteiros e faxineiros do prédio. Minha agitação era incontida, e sempre extravasava para manifestações violentas. Mas nunca consegui ter vontade de fazer isso com Marcolino, nosso intocável anjo-malandro negro. Havia certo respeito ao velho-malandro-negro-pilintra.

Marcolino era diferente de todos os outros. Para o mundo, Marcolino não é mais que um pobre preto e favelado morto. Para nós, no entanto, Marcolino pode ser muito mais. Marcolino ficou registrado em meu coração, assim como no do meu irmão, dos meus pais e dos outros meninos do prédio. Esteja em paz, Marcolino.

Assinado: Pelé, ou Zico, ou Piaza, talvez Romário, ou Tostão...tanto faz.


***

 

“Once you learn how to love, the world becomes yours.”

Renato Russo

 

One of the happiest periods of my life was the early 1990s, when I was making the transition from childhood to adolescence. My world was wonderfully simple. My mind was occupied by little beyond my friends, soccer, and my first innocent crushes. In 1992, my family moved from an apartment building where my brother and I were virtually the only children into another building overflowing with boys our own age, several of whom attended the same school we had been going to since early childhood.

That was when I began walking around the neighborhood on my own and made my first true friends. At the time, those friendships felt unbreakable. As life would have it, none of them endured. They rarely do. Yet, back then, they seemed destined to last forever. I also became a member of the Tijuca Tennis Club, where I developed an even deeper love for soccer, experienced my first kiss, learned to swim, and accumulated many other memories. As much as I loved the club, however, the place where I truly felt at home was our apartment building. We boys were like brothers. I knew neither fear nor hesitation. Bullying simply did not exist there. There were no malicious older boys waiting to torment us. It was a place where my brother and I felt safe. I came to know many of the building’s residents, caretakers, and doormen. Some of those relationships were warm; others were considerably less so. Looking back, I must admit that most of the unpleasant ones were largely my own doing. My boundless energy and excitement could be exhausting to some adults. After a rather solitary early childhood, I suddenly found myself surrounded by boys my own age. For the first time, I truly felt that I belonged.

Among the people I remember from those years is Marcolino, one of the building’s janitors.

Marcolino occasionally filled in for the doormen and night watchmen, but he never became one himself. Perhaps he lacked the stern demeanor expected of a concierge. Perhaps his cognitive limitations—which I now suspect were significant—prevented it. Whatever the reason, he would never have fit the image of the polished, deferential employee expected by Tijuca’s middle-class bourgeois residents. He was a very tall, extremely thin Black man, stooped, toothless, and utterly unconcerned with speaking or dressing in the refined manner that respectable employers so often demanded of those who served them.

Marcolino belonged to a disappearing breed of old Rio malandros—those streetwise, carefree characters who seem increasingly absent from the city today. His speech was rough and almost unintelligible. Only after living alongside him for quite some time did we begin to understand what he was saying. Even then, we realized that his sentences often lacked any logical sequence. His words made perfect sense only inside a mind permanently marinated in cachaça. He was a true Zé Pilintra figure, carrying himself with a style that people unfamiliar with Rio de Janeiro often assume exists only in Carnival folklore.

I have no idea whether Marcolino was fifty or eighty years old during those years. I am, however, quite certain that he has long since passed away. Time alone tells me so. May he rest in peace. And yet, whenever I remember him—and allowing myself a touch of poetic irreverence — I cannot imagine him lying quietly in some celestial paradise. I picture him wandering happily through the street corners of Tijuca, cigarette in hand, a glass of cachaça never too far away, smiling at everyone who crosses his path. That is Marcolino.

Marcolino drank heavily. It was not uncommon for him to arrive at work completely intoxicated. To us boys, however, that made absolutely no difference. There could not have been a kinder companion than that old malandro. Marcolino was as lighthearted as a feather.

 

He was our biggest supporter. He genuinely delighted in our endless games. We, of course, believed ourselves to be future soccer stars. Marcolino, whether unconsciously—or perhaps with the peculiar wisdom that only certain old souls possess—nurtured those dreams. Whenever we walked past carrying our soccer balls, I carrying, along with mine, the dream of one day becoming a professional player, Marcolino would greet us with his toothless grin and, in his unmistakable malandro cadence, begin to announce an imaginary lineup: “Pelé... Didi... Zagallo... Vavá... Pepe... Romário...” Each legendary name somehow referred to one of us. We never understood his impossible lineup, which brought together players from entirely different generations. I doubt he even knew many of the contemporary stars besides Romário. Sometimes Pelé and Zico appeared in the same team; at other times Garrincha would unexpectedly join the list. He never bothered to explain who was supposed to be whom. Still, we understood enough. Names like Pelé, Garrincha, and—naturally for a Flamengo supporter—Zico were more than sufficient for us to realize what he meant. Those little encounters had no social importance whatsoever. We rarely answered him. In truth, Marcolino seemed to be carrying on a cheerful conversation with himself. He reminded me of a grandfather quietly entertaining his own imagination, never expecting the children around him to understand him completely.

One evening I caused quite a commotion in the building’s lobby. Aggressiveness has always been one of the less admirable parts of my personality, and it was no different then. I was determined to pick a fight with someone, though I no longer remember who my intended victim was. Marcolino happened to be filling in for the night watchman that evening. Without saying a single word about the argument we were creating, he quietly reached into the desk drawer, took out one of those self-help books, looked in our direction, and, in the sing-song voice that was so uniquely his, slowly read the title aloud—to no one in particular: “The Most Important Thing Is True Love.” Instantly, every quarrel came to an end. I remember being pulled out of my anger simply by the effortless humor of that old malandro. I seriously doubt Marcolino ever read a single page of that book. And yet, somehow, it fulfilled its purpose. That was Marcolino.

I also remember, with sadness, the only day I ever saw Marcolino unhappy. His sorrow revealed itself only through a certain hesitation in his eyes. Someone had mistakenly shot and killed his son. At twelve or thirteen years of age, I was incapable of grasping the magnitude of that tragedy. A boy simply does not possess the emotional resources to understand such grief. And yet, by the following day, Marcolino was Marcolino once again. With the easy swagger of the favela, with his unmistakable malandragem, he had already become our old companion again—the cheerful rogue whose words rarely made much sense, yet whose presence always did. He was the one to whom I occasionally brought the cand I had shoplifted from Woolworth’s. Sharing those stolen sweets somehow made him my accomplice. I was, in truth, a rather wild boy. I loved roughhousing and mock fights, even with the building’s doormen and janitors. My energy overflowed easily into physical play that often bordered on real aggression. Curiously, I never felt the slightest desire to behave that way with Marcolino. He was untouchable. There was something about that old Black malandro that naturally inspired respect.

Marcolino was unlike anyone else. To the world, he may have been nothing more than another poor Black man from the favela whose life has long since faded into anonymity. To us, however, he was infinitely more than that. Marcolino lives on in my memory, just as he lives on in my brother’s, in my parents’, and in the memories of the other boys who grew up in that building.

Rest in peace, Marcolino.

 Signed,

Pelé... or perhaps Zico... maybe Piazza... Romário... Tostão...

It really doesn’t matter.


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