“Quando se aprende a amar, o mundo
passa a ser seu”
Renato Russo
Uma das épocas mais felizes de vida foi o momento em que,
no início dos anos 1990, fazia a transição de minha infância para a
adolescência. O meu universo era simples: não havia muita coisa em minha mente
para além dos amigos, o futebol e as primeiras paixões. No ano de 1992, tive a
oportunidade de me mudar de um prédio em que só havia eu e meu irmão para um
prédio repleto de moleques da nossa idade, sendo que alguns dos quais
frequentavam a mesma escola que eu e meu irmão frequentávamos desde a mais
tenra infância.
Tive a oportunidade de começar a andar sozinho nesse
período, e tive a oportunidade de fazer os primeiros amigos que tive na vida.
Relações que pareciam tão fortes, e, no entanto, e como é de se esperar, não
ficou ninguém. Como sempre é. Mas, naquele momento, eram, para mim, os melhores
amigos da vida inteira. Tive a oportunidade de frequentar o Tijuca Tênis Clube,
onde foi fomentado o grande prazer que tinha pelo futebol, o primeiro beijo, as
aulas de natação etc. Ainda que eu gostasse muito do clube, o local em que eu
realmente me sentia em casa, no entanto, era o prédio. Éramos, os meninos, como
irmãos. Eu não tinha medo ou receio. Não havia possibilidade de bullying.
Não havia meninos mais velhos maldosos. Era o local em que eu e meu irmão
estávamos protegidos. Muitas foram as relações que mantive com moradores e com
os porteiros do prédio. Algumas, boas; outras, ruins. As relações ruins eram
quase todas por minha culpa; meu nível de agitação e de euforia era, para
alguns, insuportável. Após uma primeira infância solitária, passava a conviver
com muitos moleques da minha idade: começava a me sentir gente.
Relembro-me do Marcolino, um dos faxineiros do prédio.
Marcolino foi um faxineiro e substituto eventual dos
porteiros e vigias. Provavelmente por sua incapacidade de manter uma postura
mais austera, ou talvez por suas (severas, creio eu) limitações cognitivas,
Marcolino não foi promovido à categoria de porteiro. Marcolino não seria
aprovado como porteiro (ou garçom) pela burguesia tijucana de classe média. Em
primeiro lugar, Marcolino era um negro muito alto, magro e deselegante para os
padrões que os burgueses esperam de seus serviçais; era desdentado; além de
muito magro e curvado, não conseguia ter deferência no linguajar ou no
vestuário.
Marcolino era um daqueles velhos malandros que são cada
vez mais raros no Rio de Janeiro. Sua fala era rasgada; só depois de muita
convivência é que conseguíamos entender o que dizia; mais do que isso,
conseguíamos entender que suas palavras não eram bem concatenadas entre si:
Marcolino proferia umas palavras desconexas que só faziam sentido em sua cabeça
repleta de cachaça. Era um zé pilintra, e mantinha aquele estilo que alguém de
fora do Rio de Janeiro não acredita existir fora do carnaval.
Não sei se Marcolino tinha 50 ou 80 anos entre os anos de
1992 e 1995. Estou certo, no entanto, de que Marcolino é hoje falecido, a tirar
pela equação entre os tantos anos em que o vi pela última vez associado com a
compleição física que tinha então: ‘Que Deus o tenha’. Mas, sempre que me
lembro de Marcolino, e concedendo-me licença poética para uma heresia, vejo-o
vagando pelas encruzilhadas da Tijuca, feliz, bebendo cachaça e fumando. Esse é
o Marcolino. A morte não pode redimi-lo. Marcolino é um exu. Ele não será capaz
de um dia cultivar violetas na janela. Marcolino não tocará harpa. Marcolino
não orientará espíritos perdidos. No máximo, Marcolino está tocando pandeiro.
Marcolino é um espírito estável. Não é capaz de evoluir ou regredir. Marcolino
é um anjo pronto: não consigo vislumbrá-lo senão como o velho malandro tão afim
a nós, as crianças, os púberes, os moleques cariocas.
Marcolino era dado ao álcool. Não raro, chegava ao
trabalho completamente embriagado. Para nós, os moleques, isso não fazia a
menor diferença. Não podia haver um camarada mais ‘gente boa’ que aquele
malandro. O velho Marcolino era leve como uma pluma.
Era o nosso torcedor. Era feliz na convivência com a
molecagem. Nós, os moleques, nos considerávamos os verdadeiros craques da bola.
E o Marcolino, talvez de maneira inconsciente, ou então por meio da consciência
que só os anjos possuem, fomentava nossos sonhos. Enquanto passávamos com
nossas bolas de futebol, e eu com meu sonho de um dia ser um craque da bola,
Marcolino, com sua risada desdentada, dizia, com sua alegria natural e com sua
postura de malandro: ‘Pelé, Didi, Zagalo, Vavá, Pepe, Romário’, cada nome
correspondendo a um de nós. Não entendíamos nada dessa sua escalação imaginária
de jogadores de diferentes tempos históricos. Acho que ele não conhecia os
craques da época, senão o Romário. Ele nem deixava claro quem era quem naquela
sua escalação imaginária, que às vezes misturava Pelé com Zico. Na verdade,
entendíamos o que Marcolino estava dizendo pelo menos por causa de nomes tais
como Zico (obviamente, Marcolino era flamenguista), Pelé e Garrincha. Essas
cenas eram desprovidas de qualquer relevância social. Não éramos recíprocos a
essa conversa risonha que Marcolino no fundo tinha com ele mesmo. Era uma
espécie de grande vovô se divertindo consigo mesmo e sem a pretensão de nos
fazer entendê-lo.
Certa vez, eu criei um tumulto imenso na portaria. Tenho,
dentro de mim, uma grande agressividade. Não era diferente naquele momento. Eu
queria brigar com alguém. Nem me lembro quem comecei a perturbar. De repente,
numa daquelas noites em que Marcolino substituía o vigia, ele tira um desses
livros de autoajuda da gaveta da mesa da portaria, olha para nós e, sem
qualquer referência explícita às confusões que armávamos, leu, com a voz
cantada do malandro, e para si mesmo, o título: “O mais importante é o verdadeiro
amor”. Naquele momento, todas as querelas cessaram. Lembro-me de ter sido
retirado da posição em que estava, pela força do humor descompromissado e
simples do velho Marcolino. Eu duvido que Marcolino andou alguma página daquele
livro, mas aquele material serviu para alguma coisa. Esse é o Marcolino.
Lembro-me com tristeza do único dia em que vi Marcolino
triste, ainda que sua dor só fosse transmitida por certa reticência de seu
olhar: refiro-me ao dia em que, por engano, balearam e mataram seu filho. Claro
que, do alto de meus 12, 13 anos, fui incapaz de perceber, como hoje, a
significação daquela dor. E, como um púbere, não pude mesmo perceber: no dia
seguinte, Marcolino era o Marcolino de sempre. Com seus maneirismos da favela,
com sua malemolência, Marcolino era de novo o nosso amigão, o malandro que não
dizia nada com nada. O malandro para quem eu gostava de eventualmente levar as
balas que eu furtava nas lojas americanas. Ao dividir as balas com o Marcolino,
ele se tornava meu cúmplice. Eu era de fato muito louco: era dado a
brincadeiras de brigas, inclusive com os porteiros e faxineiros do prédio.
Minha agitação era incontida, e sempre extravasava para manifestações
violentas. Mas nunca consegui ter vontade de fazer isso com Marcolino, nosso
intocável anjo-malandro negro. Havia certo respeito ao velho-malandro-negro-pilintra.
Marcolino era diferente de todos os outros. Para o mundo,
Marcolino não é mais que um pobre preto e favelado morto. Para nós, no entanto,
Marcolino pode ser muito mais. Marcolino ficou registrado em meu coração, assim
como no do meu irmão, dos meus pais e dos outros meninos do prédio. Esteja em
paz, Marcolino.
Assinado: Pelé, ou Zico, ou Piaza, talvez Romário, ou
Tostão...tanto faz.
***
“Once
you learn how to love, the world becomes yours.”
Renato
Russo
One of the
happiest periods of my life was the early 1990s, when I was making the
transition from childhood to adolescence. My world was wonderfully simple. My
mind was occupied by little beyond my friends, soccer, and my first innocent
crushes. In 1992, my family moved from an apartment building where my brother
and I were virtually the only children into another building overflowing with
boys our own age, several of whom attended the same school we had been going to
since early childhood.
That was when
I began walking around the neighborhood on my own and made my first true
friends. At the time, those friendships felt unbreakable. As life would have
it, none of them endured. They rarely do. Yet, back then, they seemed destined
to last forever. I also became a member of the Tijuca Tennis Club, where I
developed an even deeper love for soccer, experienced my first kiss, learned to
swim, and accumulated many other memories. As much as I loved the club,
however, the place where I truly felt at home was our apartment building. We
boys were like brothers. I knew neither fear nor hesitation. Bullying simply
did not exist there. There were no malicious older boys waiting to torment us.
It was a place where my brother and I felt safe. I came to know many of the
building’s residents, caretakers, and doormen. Some of those relationships were
warm; others were considerably less so. Looking back, I must admit that most of
the unpleasant ones were largely my own doing. My boundless energy and
excitement could be exhausting to some adults. After a rather solitary early
childhood, I suddenly found myself surrounded by boys my own age. For the first
time, I truly felt that I belonged.
Among the
people I remember from those years is Marcolino, one of the building’s
janitors.
Marcolino
occasionally filled in for the doormen and night watchmen, but he never became
one himself. Perhaps he lacked the stern demeanor expected of a concierge.
Perhaps his cognitive limitations—which I now suspect were
significant—prevented it. Whatever the reason, he would never have fit the
image of the polished, deferential employee expected by Tijuca’s middle-class
bourgeois residents. He was a very tall, extremely thin Black man, stooped,
toothless, and utterly unconcerned with speaking or dressing in the refined
manner that respectable employers so often demanded of those who served them.
Marcolino
belonged to a disappearing breed of old Rio malandros—those streetwise,
carefree characters who seem increasingly absent from the city today. His
speech was rough and almost unintelligible. Only after living alongside him for
quite some time did we begin to understand what he was saying. Even then, we
realized that his sentences often lacked any logical sequence. His words made
perfect sense only inside a mind permanently marinated in cachaça. He was a
true Zé Pilintra figure, carrying himself with a style that people unfamiliar
with Rio de Janeiro often assume exists only in Carnival folklore.
I have no idea
whether Marcolino was fifty or eighty years old during those years. I am,
however, quite certain that he has long since passed away. Time alone tells me
so. May he rest in peace. And yet, whenever I remember him—and allowing myself
a touch of poetic irreverence — I cannot imagine him lying quietly in some
celestial paradise. I picture him wandering happily through the street corners
of Tijuca, cigarette in hand, a glass of cachaça never too far away, smiling at
everyone who crosses his path. That is Marcolino.
Marcolino drank heavily. It was not uncommon
for him to arrive at work completely intoxicated. To us boys, however, that
made absolutely no difference. There could not have been a kinder companion
than that old malandro. Marcolino was as lighthearted as a feather.
He was our biggest supporter. He genuinely
delighted in our endless games. We, of course, believed ourselves to be future
soccer stars. Marcolino, whether unconsciously—or perhaps with the peculiar
wisdom that only certain old souls possess—nurtured those dreams. Whenever we
walked past carrying our soccer balls, I carrying, along with mine, the dream
of one day becoming a professional player, Marcolino would greet us with his
toothless grin and, in his unmistakable malandro cadence, begin to announce an
imaginary lineup: “Pelé... Didi...
Zagallo... Vavá... Pepe... Romário...” Each legendary name somehow referred to one of us. We never
understood his impossible lineup, which brought together players from entirely
different generations. I doubt he even knew many of the contemporary stars
besides Romário. Sometimes Pelé and Zico appeared in the same team; at other
times Garrincha would unexpectedly join the list. He never bothered to explain
who was supposed to be whom. Still, we understood enough. Names like Pelé,
Garrincha, and—naturally for a Flamengo supporter—Zico were more than
sufficient for us to realize what he meant. Those little encounters had no
social importance whatsoever. We rarely answered him. In truth, Marcolino
seemed to be carrying on a cheerful conversation with himself. He reminded me
of a grandfather quietly entertaining his own imagination, never expecting the
children around him to understand him completely.
One evening I caused quite a commotion in the
building’s lobby. Aggressiveness has always been one of the less admirable
parts of my personality, and it was no different then. I was determined to pick
a fight with someone, though I no longer remember who my intended victim was. Marcolino
happened to be filling in for the night watchman that evening. Without saying a
single word about the argument we were creating, he quietly reached into the
desk drawer, took out one of those self-help books, looked in our direction,
and, in the sing-song voice that was so uniquely his, slowly read the title
aloud—to no one in particular: “The Most Important Thing Is True Love.” Instantly,
every quarrel came to an end. I remember being pulled out of my anger simply by
the effortless humor of that old malandro. I seriously doubt Marcolino ever
read a single page of that book. And yet, somehow, it fulfilled its purpose. That
was Marcolino.
I also remember, with sadness, the only day I
ever saw Marcolino unhappy. His sorrow revealed itself only through a certain
hesitation in his eyes. Someone had mistakenly shot and killed his son. At
twelve or thirteen years of age, I was incapable of grasping the magnitude of
that tragedy. A boy simply does not possess the emotional resources to
understand such grief. And yet, by the following day, Marcolino was Marcolino
once again. With the easy swagger of the favela, with his unmistakable
malandragem, he had already become our old companion again—the cheerful rogue
whose words rarely made much sense, yet whose presence always did. He was the
one to whom I occasionally brought the cand I had shoplifted from Woolworth’s.
Sharing those stolen sweets somehow made him my accomplice. I was, in truth, a
rather wild boy. I loved roughhousing and mock fights, even with the building’s
doormen and janitors. My energy overflowed easily into physical play that often
bordered on real aggression. Curiously, I never felt the slightest desire to
behave that way with Marcolino. He was untouchable. There was something about
that old Black malandro that naturally inspired respect.
Marcolino was unlike anyone else. To the world,
he may have been nothing more than another poor Black man from the favela whose
life has long since faded into anonymity. To us, however, he was infinitely
more than that. Marcolino lives on in my memory, just as he lives on in my
brother’s, in my parents’, and in the memories of the other boys who grew up in
that building.
Rest in peace, Marcolino.
Pelé... or perhaps Zico... maybe Piazza...
Romário... Tostão...
It really doesn’t matter.

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