terça-feira, 20 de agosto de 2024

Em 20 de Agosto de 2024 (terça). Será que jogar conversa fora é realmente jogar algo fora? // On August 20, 2024 (tuesday). Is small talk really throwing something away?

 


O que fazer quando não há nada a fazer? O que fazer quando não há um trabalho para realizar, uma louça para lavar, uma comida para fazer, uma televisão para ver, um livro para ler, um som para ouvir ou ainda (não pode faltar nessa lista) um celular para manusear? O que fazer quando você está em um lugar (público ou não) e alguém está a seu lado? Parece-me haver não mais que três opções: (i) fazer algo; (ii) nada fazer e manter-se em silêncio, fundido consigo mesmo e em estado de contemplação de suas próprias sensações e pensamentos; (iii) jogar conversa fora para preencher os espaços de silêncio que costumam tanta angústia causar no humano.

Enquanto você acompanha o treino de futebol do seu filho, você pode (i) fazer algo: você pode olhar o treino, manusear o celular ou mesmo ler um livro; (ii) você pode nada fazer, se é que podemos assim nos referir ao ato de se dedicar a acompanhar nossa respiração e sensações, ‘suspendendo o juízo’ (se isso é possível) em relação a todo fazer; (iii) você pode ‘trocar’ palavras com quem está a seu lado. É o que se chama de ‘jogar conversa fora’, um jogo de comunicação em que um sujeito ‘a’ menciona fatos desimportantes de seu cotidiano para o sujeito ‘b’, que, por sua vez, também menciona fatos desimportantes de seu cotidiano. É possível que se passe duas horas dizendo sobre as frutas e doces que você gosta de comer ou sobre a rotina e os hábitos alimentares do seu filho. É possível que você passe duas horas discorrendo sobre os aspectos mais regulares de sua rotina pessoal ou de trabalho para alguém que mal sabe seu nome. Acredito que esse jogo constitui um rito que acabou se difundindo e mesmo se tornando necessário para manter um estado homeostático saudável dentro de uma sociedade que não consegue suportar o silêncio.

Por outro lado, também é verdade que há exceções notáveis a esse modo de compartilhar espaços. Em Neither Wolf nor dog, Kent Burn nos relata um diálogo que teve com um índio Lakota: “Quando estão numa habitação e há silêncio, ficam nervosos. / Precisam preencher o espaço com sons. / Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.” A mesma compreensão é notada aqui no Brasil, por exemplo entre os Guarani Mbya: “Havia espaço para o silêncio, e ele não estava ali por acaso – ele era a resposta para as escutas. O silêncio é o momento em que você fica com você e se percebe em relação ao meio que ocupa, conecta-se com a natureza (ar, fogo, terra, água, madeira, borboleta), diminui o fluxo dos pensamentos e apenas se está. Não há necessidade de sempre se colocar no espaço projetando sua voz, como se isso representasse a sua existência. O silêncio nos possibilita ouvir os pequenos sons, as muitas vozes existentes, sentir o cheiro das pessoas, das coisas, dos lugares, ver de verdade e não apenas passar o olhar despercebido das profundidades e das cores, sentir a chegada das pessoas, sentir a mudança do tempo e a força e conexão de nossa existência com a terra. Foi o silêncio que me possibilitou compreender a importância do tempo.”

Entre os indivíduos que bebem além da conta ou que bebem em situações extraordinárias, jogar conversa fora é um expediente a que se recorre, ainda que inconscientemente, para distrair o tempo e os seus possíveis inspetores, aqueles que podem por algum motivo constituir um entrave para suas finalidades. Expediente semelhante é o jogo. É algo que, assim como o ‘jogar conversa fora’, está entre o fazer e o nada fazer.

Retomo a pergunta com a qual dei início a essa reflexão: Será que jogar conversa fora é realmente jogar algo fora? Eu acho que sim. É jogar fora o seu tempo, a possibilidade de limpar sua mente do excesso de informações a que estamos cotidianamente submetidos, o cultivo de seu silêncio, a possibilidade de estar consigo mesmo. É fracassar na capacidade que temos de usar a linguagem para compreendermos a nós mesmos e de entabularmos, com o outro, um processo conjunto de engrandecimento, ainda que mínimo, via o cultivo de suas habilidades ‘espirituais’ ou via uma escuta sincera e autêntica.

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What should one do when there is nothing to do? What should one do when there is no work to accomplish, no dishes to wash, no meal to prepare, no television to watch, no book to read, no music to listen to—or (for no such list would be complete without it) no smartphone to handle? What should one do when one finds oneself somewhere—whether in a public place or not—with another person nearby? It seems to me that there are no more than three possibilities: (i) to do something; (ii) to do nothing and remain in silence, absorbed in oneself and contemplating one's own sensations and thoughts; or (iii) to engage in small talk in order to fill the silences that so often provoke anguish in human beings.

While watching your son's soccer practice, for example, you may (i) do something: you may watch the training session, use your smartphone, or even read a book; (ii) you may do nothing, if we can indeed describe as "doing nothing" the act of attending to one's breathing and bodily sensations while "suspending judgment" (if such a thing is possible) with respect to every form of activity; or (iii) you may exchange words with the person sitting beside you. This is what we commonly call small talk: a communicative game in which person A mentions trivial details of everyday life to person B, who, in turn, responds with equally trivial details of his or her own routine. It is entirely possible to spend two hours discussing the fruits and desserts you enjoy eating or your child's eating habits and daily routine. One may likewise spend two hours describing the most ordinary aspects of one's personal or professional life to someone who scarcely knows one's name. I believe that this practice has become a social ritual, one that has gradually spread until it has become almost indispensable for maintaining a kind of healthy homeostasis within a society incapable of tolerating silence.

On the other hand, there are remarkable exceptions to this way of sharing space. In Neither Wolf Nor Dog, Kent Nerburn recounts a conversation he once had with a Lakota elder: "When they are inside a dwelling and silence settles in, they become nervous. They have to fill the space with sounds. So they speak compulsively, even before they know what they are going to say."

A similar understanding may be found here in Brazil, for example among the Guarani Mbya: "There was room for silence, and it was not there by accident—it was the response to listening. Silence is the moment when you remain with yourself and become aware of yourself in relation to the place you inhabit. You connect with nature—with the air, fire, earth, water, wood, butterflies. The flow of thoughts subsides, and you simply are. There is no need always to occupy space by projecting your voice, as though that alone confirmed your existence. Silence enables us to hear the smallest sounds, the many voices that surround us, to perceive the scent of people, things, and places, to see truly rather than merely glance past depths and colors, to sense the arrival of others, to feel the changing weather, and to experience the strength of our connection with the earth. It was silence that allowed me to understand the importance of time."

Among those who drink excessively—or who drink only on exceptional occasions—small talk often becomes, albeit unconsciously, a device for distracting both time itself and its possible inspectors, those who might, for one reason or another, hinder the purposes they wish to pursue. Games serve a similar function. Like small talk, they occupy an intermediate space between doing something and doing nothing.

I return, then, to the question with which I began this reflection: Is small talk really throwing something away? I believe it is. It is throwing away one's time, the opportunity to clear one's mind of the excess of information to which we are subjected every day, the cultivation of silence, and the possibility of simply being with oneself. It is a failure to use language as a means of understanding ourselves and of engaging, together with another person, in a shared process of mutual enrichment, however modest, whether through the cultivation of our "spiritual" capacities or through genuine and authentic listen.


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Arte/Art
ANGELICO, Fra
Entombment
1438-40
Tempera on wood, 38 x 46 cm
Alte Pinakothek, Munich




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