Não acredito no
milagre do mindfulness, mas estou certo de que uma das piores formas de
boicote que você pode fazer em relação a si mesmo durante suas atividades é
parar para conferir notificações do smartphone ou se perder mentalmente em
relação a seus devaneios ou problemas. A sensação de que uma atividade foi
realizada de maneira bem-feita pode depender da certeza de que você se entregou
inteiramente à sua prática. Não pretendo mais prejudicar minhas atividades
atendendo às demandas externas.
O movimento slow
é uma resistência ao espírito frenético de nossos tempos. Já são conhecidos
os benefícios do movimento slow em nossa relação com a alimentação.
Igualmente benéfica é a orientação slow para a leitura: no lugar do
excesso de informação e da contagem de páginas e livros, o olhar atento, detido
e cuidadoso ao que se lê. Quantas passagens ricas e quantos detalhes estupendos
perdemos na ânsia de finalizar um texto. Talvez seja bom cuidarmos mais da
jornada. É por ter essa compreensão que tenho buscado escolher de maneira muito
criteriosa os livros que leio. Mas o movimento slow não vale apenas para
a alimentação e a leitura: os princípios do slow valem para muitas
dimensões da vida.
Muitas são as
interpretações possíveis para a pergunta: por que o pequeno príncipe não
respondia às perguntas do aviador? Ocorreu-me que talvez o menino não quisesse
correr o risco de não ser ouvido ou simplesmente estava certo de que fato ser
ouvido é coisa tão rara que não vale a pena gastar energia falando com os
outros sobre si mesmo.
Perguntaram-me
hoje se eu tenho uma posição quanto ao estatuto de verdade da psicanálise. Pego
de surpresa pela pergunta, e talvez por saber que a vontade de ouvir tende a
girar entre ser pequena e ser nula, fingi uma resposta. Durante a corrida,
pensei: minha analista se orienta pelos ensinamentos e transmissão de Freud e
Lacan, e comigo tem dado certo. Minha análise tem sido uma experiência
libertadora. Sigo estudando Freud e os pós-freudianos com o coração aberto e a
escuta plena.
Sou a favor da irrestrita liberdade de expressão. Considero abominável e anti-humana qualquer forma de censura. No entanto, pagamos um preço pelo que falamos. O poder da palavra é muito grande.
Para mim, a vida é muito curta para me entregar qualquer energia a questões de política e de opinião pública. Adoro a liberdade que tenho de não ter opinião. Exerço essa liberdade para quase tudo. Talvez passada a metade do meu tempo de vida, prefiro devotar o que tenho de tempo às artes, à literatura, à filosofia, à psicanálise, à psicologia e à minha família.
I do not believe in the miracle of mindfulness, but I am convinced that one of the worst ways to sabotage yourself during any activity is to stop to check smartphone notifications or to become mentally absorbed in daydreams and worries. The feeling that an activity has been well accomplished may depend on the certainty that you gave yourself over to it completely. I no longer intend to undermine my activities by yielding to external demands.
The slow movement is a form of resistance to the frantic spirit of our times. Its benefits for our relationship with food are already well known. Equally beneficial is the slow approach to reading: instead of pursuing an excess of information or counting pages and books, it invites careful, attentive, and unhurried engagement with what we read. How many rich passages and remarkable details do we miss in our eagerness to finish a text? Perhaps we should pay more attention to the journey itself. It is because I have come to this understanding that I have tried to choose my books with great care. But the slow movement is not limited to food and reading: its principles can be applied to many dimensions of life.
There are many possible interpretations of the question: Why did the Little Prince never answer the aviator's questions? It occurred to me that perhaps the boy did not want to risk not being heard, or perhaps he simply knew that truly being heard is such a rare experience that it is hardly worth spending one's energy talking to others about oneself.
Today someone asked me whether I hold a position regarding the truth status of psychoanalysis. Caught off guard by the question—and perhaps knowing that the willingness to listen often ranges from very little to none at all—I improvised an answer. While running, I reflected on it again. My analyst works within the tradition of Freud and Lacan, and it has worked well for me. My analysis has been a profoundly liberating experience. I continue to study Freud and the post-Freudian thinkers with an open heart and a receptive mind.
I am in favor of unrestricted freedom of expression. I regard every form of censorship as abhorrent and contrary to our humanity. Even so, we pay a price for what we say. Words possess immense power.
As for me, life is too short to devote much energy to politics or public opinion. I cherish the freedom of not having an opinion. I exercise that freedom in almost every sphere of life. Perhaps now that I have passed the midpoint of my lifetime, I would rather dedicate whatever time remains to the arts, literature, philosophy, psychoanalysis, psychology, and my family.
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Arte/ArtBALDUNG GRIEN, Hans
Adam and Eve
Oil on wood, 212 x 85 cm (each panel)
Galleria degli Uffizi, Florence

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