sábado, 23 de novembro de 2024

Entre 21 e 23 de Novembro de 2024 (Entre quinta e sábado). A exaustão da sociedade contemporânea // Between November 21 and 23, 2024 (Thursday to Saturday). The exhaustion of contemporary society

 


“Impressionante a quantidade de pessoas que encontro e que a primeira frase é ‘Estou exausto’”. Com essas palavras, o psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras[1] dá início a um belíssimo texto, postado em sua conta do Facebook no dia 07 de Setembro de 2024.

O que está em jogo no texto é exatamente o que anuncia em sua primeira frase: a exaustão generalizada, a exaustão que, em uma sociedade do cansaço, se torna norma. E é justamente com a intenção de progredir em suas reflexões sobre as causas desse cansaço generalizado que Marcelo Veras vai ao encontro do termo ‘sociedade do cansaço’, cunhado pelo filósofo sul-coreano radicado em Berlim (Alemanha) Byung-Chu Han em seu livro homônimo. O diagnóstico de Marcelo Veras é o de que o cansaço generalizado de nosso tempo não se compreende como a sensação de cansaço que esperamos encontrar em alguém que trabalhou ao longo de um período intenso. Para Veras, o que está efetivamente em jogo por trás da declaração de exaustão é a afirmação de que há algo no mundo que não vai bem.

Se essa conexão é o caso, cumpre então perguntar: o que estamos dizendo estar errado no mundo quando dizemos estar exaustos? Em que sentido nossa confissão de cansaço não é apenas uma afirmação sobre o nosso próprio cansaço, mas, outrossim, um diagnóstico sobre o mundo? Nossa exaustão, crê Marcelo Veras, é, talvez dentre outras coisas, uma afirmação sobre a nossa dificuldade cada vez maior de uma desconexão. Entendemos melhor o que há de exaustivo nessa dinâmica quando compreendemos o terrível paradoxo aí envolvido, a saber: a dificuldade cada vez maior de desconexão não implica uma maior capacidade de conexão. O próprio entendimento de conexão passa por uma alteração programada para ser sutil e, ao mesmo tempo, mutiladora. Em que pese o fato de nunca termos falado tanto de conexão e conectividade, nada resta do antigo conceito de conexão.

Em que sentido, portanto, a exaustão generalizada se explica pela nossa cada vez maior dificuldade em se desconectar? Desde o momento em que acordamos – não raro muito tempo antes de sairmos da cama – até o momento em que fechamos os olhos – não raro muito tempo depois de nos deitarmos –, somos ‘bombardeados’ por notícias, fotos, informações, mensagens de WhatsApp e por um sem-número de notificações das nossas tantas redes sociais. Todos esses estímulos chegam a nós de maneira incessante, permanente e em grande quantidade. Mais do que isso, trazem consigo a sensação de urgência. Os smartphones insistem para que liberemos as notificações dos aplicativos, sempre com o argumento de que teremos nossa vida ‘facilitada’, de que teremos uma ‘maior e melhor experiência’ (seja lá o que isso signifique) e de que estaremos mais ‘conectados’. Ao mesmo tempo, somos habilmente induzidos a criar e a alimentar a expectativa de que uma mensagem receberá resposta imediata. Um prestador de serviço ou entregador, que ficou de aparecer entre as 08h e às 17h de um dia, chega na porta do seu prédio ou de sua casa e escreve: “cheguei”. Nossos companheiros ou parentes escrevem (e nós para eles): “pode vir me buscar”, “cheguei” etc. Não acessar essas mensagens em tempo real pode significar não ter acesso ao serviço ou ao produto; pode significar deixar o seu companheiro ou parente esperando; pode significar, além de tudo isso, uma suposta má-vontade ou negligência em relação ao outro. Qual o poder de escolha que temos de não estar conectados em aplicativos de mensagens instantâneas? Qual o poder que temos de estar desconectados dos outros, do mundo externo e do nosso smartphone?

No combo dessa nossa cada vez maior dificuldade de desconexão, pontua Marcelo Veras, temos uma mudança em relação à própria ideia de descanso, na medida em que o paradigma do sono e do despertar é substituído pelo da pausa e da retomada: dormimos enquanto conversamos pelos aplicativos de mensagens instantâneas e, quando acordamos, retomamos de onde paramos as nossas conversas inacabadas, seja pelo WhatsApp, pelo Facebook, pelo Instagram, pelo Telegram, pelo Twitter ou pelo Discord seja por vários desses ao mesmo tempo. Daí porque o que um dia foi ‘despertar’ é hoje um ‘retomar’, na lógica de um chat que nunca cessa. Essa alteração tão substancial é, ao fim e ao cabo, uma alteração na própria ideia de mundo.

Quando então Marcelo Veras propõe que a nossa confissão de cansaço é na verdade um diagnóstico sobre um mundo que não vai bem, o que parece estar querendo dizer é que há um problema estrutural na constituição desse novo mundo de onde se segue o mal-estar, o sentimento de desamparo e a exaustão. Mais uma vez, concordo com Marcelo Veras: do ponto de vista geral, o problema não se encontra senão no próprio projeto civilizatório que inere ao século XXI. Qual é a marca desse projeto civilizatório? É, ao que parece, a eliminação da singularidade. O singular é destronado e, em seu lugar, é soerguida um modelo de mundo em que passamos a estar todos conectados, dissolvidos em meio à massa amorfa da multidão, e seguindo a lógica do algoritmo e da produtividade digital.

Ocorre, no entanto, que apesar de o singular poder ser sufocado e atacado, ele não pode ser eliminado. De uma forma ou de outra, essa dimensão de primeira pessoa (re)aparece(rá). Considerando, no entanto, que o projeto civilizatório vigente não lhe confere papel, sua (re)aparição é sempre sufocada. É justamente a hiperconectividade – enquanto forma de vida que pressupõe a rejeição/exclusão das manifestações da singularidade (o que quer dizer, da própria singularidade) – que promove a desconexão, mas de si. A hiperconectividade impede a desconexão com as notícias, as fotos, as informações, as mensagens de WhatsApp e com um sem-número de notificações das nossas tantas redes sociais No lugar das conexões consigo e com os outros, a hiperconectividade promove apenas adições sem conexões: adicionamos de ‘amigos’, ‘contatos’ ou ‘curtidas’ sem nunca nos conectarmos psiquicamente.

Mais uma vez Marcelo Veras é cirúrgico ao afirmar que uma das consequências do excesso de adições sem conexões é a exaustão em relação a um outro que se infiltra em nossas vidas privadas por meio de todos os poros digitais disponíveis. No lugar da alteridade, do outro em separado, temos agora sua insistente e impessoal presença. A partir de uma relação de intimidade forjada digitalmente, o outro nos acessa a qualquer momento, em qualquer hora do dia e em qualquer lugar que estejamos, seja no trabalho, no banheiro ou no escuro do nosso quarto. As portas e janelas fechadas não impedem a ubíqua presença do outro. Eis o paradoxo muito bem anunciado por Marcelo Veras: nunca estamos sós, mas nunca estamos acompanhados. Qual é o papel do outro na minha vida? É o de ser um espectador invisível do espetáculo que ofereço. Qual é o meu papel? É o de ser um espectador invisível do espetáculo que o outro me oferece. Considerando que nossa intimidade se compõe não apenas de nossos corpos, sentimentos e sexo, mas também dos nossos gostos, das nossas leituras, dos nossos pensamentos, das músicas que estamos ouvindo, onde estamos, o que estamos comendo ou bebendo e com quem estamos, o termo ‘privacidade’ praticamente se torna um conceito de interesse histórico.

Outro efeito da hiperconectividade sem conexões é, segundo o mesmo Marcelo Veras, o aumento da síndrome FOMO (Fear of missing out, o medo de estar perdendo algo), termo cunhado por Patrick McGinnis para se referir à aversão que temos de perder o que está acontecendo, seja uma festa, uma oportunidade de emprego ou de formação, uma liquidação, ou simplesmente uma informação.

As informações constituem um capítulo à parte e, portanto, merecem um parágrafo: temos medo de perder as informações com as quais ou sem as quais o nosso mundo continua tal e qual. Não há dúvidas de que tantas são as informações interessantes, edificantes e/ou culturais. Mas por que as queremos tanto? Que ‘espaço’ as informações ocuparão em nosso edifício ‘espiritual’? Qual o preço a se pagar para acessar uma informação que leva a outra senão passar horas a rolar a seção principal da plataforma das redes sociais e dos jornais online? Por que usamos com tanta facilidade o termo ‘necessário’, quando por exemplo afirmamos que uma informação ou um filme são necessários? Onde está o singular?

Eis a causa da exaustão: gozar de tudo, e gozar sem parar. O que leva ao gozo no paradigma da hiperconectividade sem conexões senão a constante busca por estímulos (notificações, curtidas, mensagens) no interior de uma sobrecarga de interações que, longe de geração satisfação, gera antes um circuito contínuo de insatisfação e repetição? A falta não é preenchida, mas a busca por seu preenchimento não cessa. Dessa maneira, não resta espaço ou brecha para a escuta atenta e profunda do desejo. Como nos ensina ainda Marcelo Veras, a possibilidade de escutar o desejo cessa quando a falta é sufocada pelo tamponamento com qualquer coisa. A falta precisa de espaço para se expressar. Buscamos tamponá-la para escapar à frustração, que sem dúvida surge na falta; ocorre, no entanto, que um dos efeitos colaterais de sua exclusão é a impossibilidade de o desejo se expressar, pois a falta é a causa não apenas da frustração, mas também do desejo. Esse espaço é justamente o que é eliminado pela hiperconectividade sem fim. A hiperconectividade, em seus incessantes esforços de nos livrar do tédio, sufoca justamente um dos traços estruturais do desejo humano, a falta. O resultado é que nos perdemos em meio a um ciclo de gozo pelo excesso: sem conexões autênticas, estamos rodeados por informações e busca por validação via adição de interações, curtidas e notificações.

A hiperconectividade não apenas nos esvazia da dimensão simbólica e afetiva do encontro com o outro, no registro simbólico e na formação de laços sociais. Esvazia-nos de nós mesmos ao estender nossa mente para além dos limites do nosso ambiente físico. Esvazia-nos de nós mesmos ao permitir que o outro seja uma presença insistente numa lógica em que nunca estamos sós e tampouco acompanhados. O gozo, na tentativa de compensar esse vazio, nos leva ao ciclo eterno de busca por estímulos nas redes e por validações que não são mais que superficiais. Experimente postar um texto filosófico ou de literatura e observe quantas curtidas terá. Experimente agora postar uma foto, e notará a multiplicação de curtidas. O gozo efêmero gerado por esse falso reconhecimento reforça o desejo por ‘mais’. Como muito bem notou Lacan, o Outro é estruturante da subjetividade. O que ocorre no paradigma da hiperconectividade é a substituição do Outro por um reflexo narcísico que não mostra senão uma imagem idealizada e completamente fragmentária do próprio sujeito. Trata-se de uma dinâmica que acentua o gozo autocentrado que leva o sujeito a se desconectar do laço consigo mesmo e com o outro real. O que o gozo quer é gozar mais: não há como escapar desse ciclo cuja promessa de satisfação é sempre adiada, assim como nos ensinou Schopenhauer em relação à vontade, que, por ser interminável e insaciável, nos mantém eterna- e permanente reféns de um estado constante de desejo e insatisfação.

Creio ser muito importante pensar: qual o preço que pagamos para obter validações superficiais? O que vale a desconexão de si mesmo?

 

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Este texto pode até dizer algo sobre você que me lê, mas certamente é sobre mim e sobre minha exaustão. Creio estar conseguindo ver com mais clareza as raízes do meu cansaço. Sou muito grato ao psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras pela inspiração, a quem peço perdão caso eu tenha feito alguma interpretação errônea de seu texto, e a quem isento de antemão por qualquer equívoco que eu possa ter cometido. Ao final do meu texto, posto na íntegra o próprio texto de Marcelo Veras.

 

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Eis o texto original de Marcelo Veras:

 

“Impressionante a quantidade de pessoas que encontro e que a primeira frase é “Estou exausto”. Esta exaustão, bem descrita por Byung-Chu Han em seu “Sociedade do cansaço”, não implica que seja apenas exaustão de um período intenso de trabalho. Estar cansado é a nova maneira de dizer que o mundo não vai bem, e que é cada vez mais difícil uma desconexão. Não há trégua, dormimos com as notícias, com as fotos, com as inúmeras mensagens de WhatsApp e, quando acordamos, continuamos a vida como se ela fosse um enorme chat. Não há mais despertar, apenas um retomar. A impossibilidade de se desconectar do mundo transforma o próprio conceito de mundo. Cumprimos assim o grande projeto civilizatório do século XXI: todos conectados, morte do singular. Mas o singular reaparece nas adições, já que o paradoxo da hiperconectividade é que ela torna impossível a conexão, ela estimula apenas mais do mesmo, as adições. Todos se tornam exaustos do outro, que se infiltra por todos os poros digitais. Eis uma mutação da alteridade, o outro deixa de ser separação, torna-se insistente presença. Chegamos à era em que nunca se está sozinho. O mais curioso é que isso não quer dizer tampouco que se está acompanhado. O mundo digital criou um outro bizarro, um outro que não é feito para conversar, e sim para compartilhar. Não é estranho, portanto, que cada vez mais pessoas estejam afetadas pela estranha síndrome FOMO (Fear of missing out), termo cunhado por Patrick McGinnis no início do milênio para falar do medo de ficar de bobeira e estar perdendo algo incrível ao lado, uma balada, um outro emprego, uma liquidação, e mesmo ficar com alguém enquanto pode ter outras pessoas mais interessantes na festa. A exaustão vem justamente do imperativo superegoico: goze de tudo, e mais. Nenhuma brecha para o desejo, que é justamente perceber que quando algo falta, não é preciso tamponar imediatamente a falta com qualquer coisa. Se a frustração é causada pela falta, é bom lembrar que o desejo também.”

 

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"It is astonishing how many people I meet whose very first sentence is, 'I'm exhausted.'" With these words, the psychiatrist and psychoanalyst Marcelo Veras[2] opens a remarkable text published on his Facebook account on September 7, 2024.

What is at stake in his essay is precisely what his opening sentence announces: generalized exhaustion—the kind of exhaustion that, in a society of fatigue, has itself become the norm. It is precisely in order to advance his reflections on the causes of this generalized weariness that Marcelo Veras turns to the expression "the society of fatigue," coined by the South Korean philosopher based in Berlin, Byung-Chul Han, in his book of the same title. Veras' diagnosis is that the widespread exhaustion of our time should not be understood merely as the kind of tiredness we expect to find in someone who has worked intensely for a prolonged period. Rather, what truly lies behind the declaration "I am exhausted" is the assertion that something in the world is fundamentally not right.

If this connection is indeed valid, we must then ask: what are we really saying is wrong with the world when we say that we are exhausted? In what sense is our confession of fatigue not merely a statement about our own condition, but also a diagnosis of the world itself? According to Marcelo Veras, our exhaustion is, among other things, an expression of our growing inability to disconnect. We understand what is truly exhausting about this dynamic only when we grasp the disturbing paradox at its core: an increasing difficulty in disconnecting does not entail a greater capacity for genuine connection. The very notion of connection has undergone a subtle—yet deeply mutilating—transformation. Although we have never spoken so much about connection and connectivity, almost nothing remains of what the concept of connection once meant.

In what sense, then, can generalized exhaustion be explained by our ever-increasing inability to disconnect? From the moment we wake up—often long before we even get out of bed—until the moment we close our eyes—often long after we have lain down—we are constantly bombarded by news, photographs, information, WhatsApp messages, and an endless stream of notifications from our countless social media platforms. These stimuli arrive incessantly, continuously, and in overwhelming quantities. More than that, they all carry with them an implicit sense of urgency. Smartphones continually urge us to enable notifications, always promising that our lives will become "easier," that we will enjoy a "better user experience" (whatever that may actually mean), and that we will become "more connected." At the same time, we are subtly conditioned to expect that every message deserves an immediate reply. A service provider or delivery driver, scheduled to arrive sometime between 8:00 a.m. and 5:00 p.m., reaches your door and simply writes, "I'm here." Our spouses, partners, relatives, and friends text us: "Come pick me up," "I've arrived," and countless similar messages. Failing to read these communications in real time may mean missing a service, delaying a delivery, leaving someone waiting—or, worse still, appearing indifferent or negligent toward another person. How much freedom do we really have not to remain connected to instant messaging applications? How much freedom do we truly have to disconnect from others, from the outside world, and from our smartphones?

When Marcelo Veras argues that our confession of fatigue is, in reality, a diagnosis of a world that has gone awry, what he seems to suggest is that there exists a structural flaw in the very constitution of this new world—a flaw from which emerge malaise, helplessness, and exhaustion. Once again, I find myself in agreement with Marcelo Veras. Broadly speaking, the problem lies in nothing less than the civilizational project that characterizes the twenty-first century itself. And what defines this project? It seems to me that its defining feature is the elimination of singularity. The singular individual is dethroned and replaced by a model of society in which we are all permanently connected, dissolved into the amorphous mass of the crowd, governed by the logic of algorithms and digital productivity.

Yet singularity, however relentlessly attacked or suppressed, can never truly be eliminated. One way or another, this first-person dimension always reappears. Since the prevailing civilizational model assigns it no legitimate place, however, each reappearance is immediately suffocated. It is precisely hyperconnectivity—as a mode of life predicated upon the rejection of singularity itself—that produces a peculiar form of disconnection: not disconnection from the world, but disconnection from oneself. Hyperconnectivity prevents us from disconnecting from the endless flow of news, photographs, information, WhatsApp messages, and social media notifications. Yet instead of fostering genuine connections—with ourselves or with others—it merely produces additions without connection. We accumulate more friends, contacts, and likes without ever establishing authentic psychological bonds.

Marcelo Veras is once again remarkably precise when he argues that one consequence of this excess of additions without connections is a growing exhaustion toward the other, who now infiltrates our private lives through every available digital pore. In place of alterity—the genuinely separate other—we encounter only an insistent, impersonal presence. Through a digitally manufactured intimacy, the other gains access to us at any time, in any place, whether we are at work, in the bathroom, or lying in the darkness of our bedroom. Closed doors and shuttered windows no longer prevent the other's ubiquitous presence. Here lies the paradox so aptly identified by Marcelo Veras: we are never alone, yet we are never truly accompanied. What role does the other now play in my life? That of an invisible spectator to the spectacle I perform. And what is my role? To become an invisible spectator of the spectacle performed by the other. Since our intimacy now encompasses not only our bodies, feelings, and sexuality, but also our tastes, our books, our thoughts, the music we are listening to, where we are, what we are eating or drinking, and with whom we happen to be, the very concept of privacy has become almost a matter of historical interest.

Another consequence of hyperconnectivity without genuine connection, according to Marcelo Veras, is the rise of FOMO (Fear of Missing Out), a term coined by Patrick McGinnis to describe our aversion to missing whatever happens to be taking place—whether a party, a job opportunity, an educational opportunity, a sale, or simply a piece of information.

Information deserves a paragraph of its own. We fear missing information that, whether we possess it or not, leaves our world fundamentally unchanged. There is no doubt that much information is interesting, enriching, or culturally valuable. But why do we desire it so desperately? What place will such information occupy within the architecture of our inner life? What price do we pay for acquiring one piece of information that immediately leads us to another, except hours spent endlessly scrolling through social media feeds and online newspapers? Why do we so casually describe certain information or certain films as "essential"? And amid all this, where has singularity gone?

Here, then, lies the true cause of exhaustion: the imperative to enjoy everything—and never stop enjoying. What, within the paradigm of hyperconnectivity without connection, produces enjoyment other than the relentless search for stimuli—notifications, likes, messages—amid an overload of interactions that, far from generating satisfaction, merely perpetuate an endless cycle of dissatisfaction and repetition? Lack is never truly overcome, yet the search to overcome it never ceases. Consequently, no room remains for the attentive and profound listening required to discover one's own desire. As Marcelo Veras reminds us, the possibility of hearing desire disappears whenever absence is immediately smothered by some substitute. Absence requires space in which to manifest itself. We rush to cover it over in order to escape frustration—which undoubtedly accompanies absence. Yet one of the unintended consequences of eliminating frustration is that desire itself can no longer emerge, for absence is the source not only of frustration but also of desire. It is precisely this space that endless hyperconnectivity abolishes. In its relentless effort to protect us from boredom, hyperconnectivity suffocates one of the deepest structural features of human desire: lack itself. The result is that we become trapped within a cycle of excessive enjoyment. Bereft of authentic connections, we find ourselves surrounded by information and endlessly seeking validation through interactions, likes, and notifications.

Hyperconnectivity not only empties our encounters with others of their symbolic and affective dimensions, thereby weakening the formation of genuine social bonds. It also empties ourselves of ourselves by extending our minds beyond the limits of our physical environment. It alienates us from our own interiority by allowing the other to become an incessant presence within a world in which we are never alone, yet never truly accompanied. The pursuit of enjoyment, in its attempt to compensate for this emptiness, drives us into an endless cycle of seeking stimulation through social media and validation through forms of recognition that are ultimately superficial. Try posting a philosophical essay or a literary reflection and observe how many likes it receives. Then post a photograph, and you will immediately notice the multiplication of likes. The fleeting pleasure generated by this counterfeit recognition reinforces the desire for more. As Jacques Lacan so perceptively argued, the Other plays a constitutive role in the formation of subjectivity. Within the paradigm of hyperconnectivity, however, the Other is replaced by a narcissistic reflection that presents nothing more than an idealized and radically fragmented image of the self. The resulting dynamic intensifies a self-centered form of enjoyment that disconnects the individual both from himself and from the real other. Enjoyment seeks only more enjoyment; there is no escaping this cycle, whose promise of satisfaction is forever deferred—much as Schopenhauer described the nature of the Will, which, being endless and insatiable, condemns us to a perpetual state of desire and dissatisfaction.

I believe it is essential that we ask ourselves: What price do we pay for obtaining superficial forms of validation? And what is the cost of becoming disconnected from ourselves?

 

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Este texto pode até dizer algo sobre você que me lê, mas certamente é sobre mim e sobre minha exaustão. Creio estar conseguindo ver com mais clareza as raízes do meu cansaço. Sou muito grato ao psiquiatra e psicanalista Marcelo Veras pela inspiração, a quem peço perdão caso eu tenha feito alguma interpretação errônea de seu texto, e a quem isento de antemão por qualquer equívoco que eu possa ter cometido. Ao final do meu texto, posto na íntegra o próprio texto de Marcelo Veras.

 

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Here is Marcelo Veras's original text:

"It is astonishing how many people I meet whose very first sentence is, 'I'm exhausted.' This exhaustion, so aptly described by Byung-Chul Han in The Burnout Society, should not be understood merely as the exhaustion that follows an intense period of work. To say that one is tired has become the new way of saying that something in the world is not right, and that it has become increasingly difficult to disconnect. There is no respite. We fall asleep surrounded by news, photographs, and countless WhatsApp messages, and when we wake up, we simply continue life as though it were one enormous chat. There is no longer any true awakening—only resumption. The impossibility of disconnecting from the world has transformed the very concept of the world itself.

Thus we fulfill the great civilizational project of the twenty-first century: everyone connected, the death of singularity. Yet singularity reappears in the form of addictions, for the paradox of hyperconnectivity is that it makes genuine connection impossible; it stimulates only more of the same—more additions. Everyone becomes exhausted by the other, who infiltrates every digital pore. Here we witness a mutation of alterity: the other ceases to be a separation and becomes an insistent presence.

We have entered an era in which one is never truly alone. More curious still is the fact that this does not mean one is genuinely accompanied. The digital world has created a bizarre kind of other—one who exists not for conversation, but for sharing. It is therefore hardly surprising that increasing numbers of people suffer from the peculiar syndrome known as FOMO (Fear of Missing Out), a term coined by Patrick McGinnis at the beginning of the millennium to describe the fear of idling while something extraordinary is happening elsewhere: a party, a better job opportunity, a sale, or even remaining with one person while believing there might be someone more interesting elsewhere at the same event.

Exhaustion stems precisely from the superegoic imperative: enjoy everything—and then enjoy even more. No room is left for desire, which consists precisely in recognizing that, when something is lacking, one need not immediately fill that absence with something else. If frustration is caused by lack, it is worth remembering that desire is born from it as well."



[1] Marcelo Veras é atualmente coordenador do “Programa PsiU – Universidade, Saúde Mental e Bem-estar da Universidade Federal da Bahia, voltado para a escuta de questões pontuais que causam angústia e tensões aos membros – estudantes, professores e técnico-administrativos – da comunidade universitária” (Fonte: <https://cartadeservicos.ufba.br/psiu-plantao-de-acolhimento-da-ufba>.)


[2] Marcelo Veras is currently the coordinator of the PsiU Program – University, Mental Health and Well-being at the Federal University of Bahia, an initiative dedicated to providing support for specific issues that cause distress and emotional strain among members of the university community, including students, faculty, and administrative staff (Source: Federal University of Bahia, Service Charter: <https://cartadeservicos.ufba.br/psiu-plantao-de-acolhimento-da-ufba>.).

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Arte/Art
BELLINI, Giovanni
Madonna with the Child
1460-64
Tempera on panel, 47 x 34 cm
Accademia Carrara, Bergamo



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