domingo, 13 de abril de 2025

Em 13 de Abril de 2025 (domingo). Os dias passam. O que nos ensinam? // On April 13, 2025 (sunday). The days go by. what do they teach us

 


Encontro-me há 13 dias em regime de internação domiciliar; o suficiente para que fiquem enevoadas as lembranças que tenho de minha vida antes do acidente que me inseriu em um novo mundo e modo de vida, dada a estranha característica que tenho de esquecer o passado, ainda que muito próximo. Embora se espere que sejam longos os dias de um indivíduo que se encontre nas condições que me encontro, mal vejo o tempo passar: como que inconscientemente buscando compensar a inércia de um corpo com pouca mobilidade, minhas atividades cognitivas não cessam. Tenho trabalhado muito. Antes que me recomendem o repouso, preciso ressaltar: é, em mim, natural – e não penosa – a inclinação para o trabalho. No que diz respeito ao conjunto de atividades que chamo de trabalho, concilio a redação de minha tese de titularidade, preparação de aulas e as próprias aulas, orientações de trabalhos acadêmicos (desde a iniciação científica até teses de doutorado), emissão de pareceres para periódicos científicos e para as comissões da Universidade, além dos abundantes trabalhos e estudos do curso de Psicologia. Em meu descanso, dedico-me à leitura, sobre a qual é soerguido o edifício do meu trabalho e do meu espírito, dimensões que, em mim, são duas faces de uma mesma moeda. Nesse momento, alterno entre 5 livros, revezando-os à medida que encerro um capítulo ou divisão semelhante. Estou lendo ‘Demências’, da psicanalista Delia Goldfarb; os ‘textos pré-psicanalíticos’, de Freud; a ‘Montanha mágica’, de Thomas Mann; o ‘Bhagavad Gita’ e a Bíblia.

E assim transcorrem os dias. Há pouco, o ontem foi hoje. Daqui a pouco, o hoje será ontem, e o amanhã será um novo hoje. Seria um clichê, pergunto-me, dizer que os dias passam? Talvez. Por outro lado, o uso do verbo ‘passar’ para se referir aos ‘dias’ é uma intervenção das metáforas corporificadas a que recorremos para materializar, em nossa consciência, processos e outras dimensões irredutíveis a entidades materiais. Sob esse estratagema cognitivo, dias e relações afetivas transformam-se, em nossa imaginação, em uma viagem, em uma jornada. No âmbito do simbólico e das nossas cotidianas metáforas corporificadas, cada dia é uma vida, na medida em que reúne, em uma unidade, os processos constituintes de uma vida inteira: o nascimento (o despertar), a morte (o adormecer) e o desenvolvimento (o crescimento e a reprodução, isto é, tudo que fazemos, pensamos e somos entre o despertar e o adormecer).

Ora, na mesma medida em que cada dia é uma pequena vida dentro de uma vida inteira, também é maior a autonomia que temos, no interior de nossas pequenas vidas diárias, em relação ao nosso desenvolvimento, conceba-o como quiser, mental, psíquico ou espiritual: não apenas por estar mais próximo o início do fim, mas por termos, neste pequeno ciclo de desenvolvimento abarcado pelo tempo entre o despertar e o adormecer, não apenas a orientação privilegiada do passado presentificado na consciência como os humores presentes, que atendem a um propósito homeostático mental importante. Acredito também não ser óbvio conceber que cada dia é a oportunidade para desbastar algumas das arestas daninhas que atravessam os nossos dias e tentar corrigir os erros pregressos, assim como, na mesma esteira, cada anoitecer é uma oportunidade privilegiada para inventariamos nossas próprias existências. Se a existência possui sentido, independentemente de onde o encontremos, não é possível que não envolva, direta ou indiretamente, o nosso desenvolvimento. Se não possui sentido algum, como eu, um ateu, acredito ser o caso, desenvolvermo-nos é o melhor que podemos fazer com esse período de tempo no qual fomos jogados entre o não-ser de onde viemos e o não-ser do para onde vamos.

A nova vida que surge em cada amanhecer traz consigo os vestígios de nossas últimas vidas, de todos os nossos ontens. Por isso mesmo, nossas feriadas em cicatrização sempre podem ser reabertas, despertando lembranças de sofrimentos ou os reavivando, não raramente com igual ou maior intensidade.

Ao pensar no que dizem aqueles que, de diferentes formas, advogam que o sofrimento é professor, recordo-me do grande número de textos sapienciais nos quais encontramos a ideia de que a sabedoria nos capacita a ouvir as vozes não-verbais, da vida, da natureza ou de Deus. O que nos ensina um problema que muda por completo o rumo de nossas vidas? O que nos ensina a tristeza? O que nos ensina a incapacidade de conexão emocional? O que nos ensina a solidão que advém da consciência de que estamos irremediavelmente sós? O que nos ensina o silêncio de dias chuvosos e tardes de domingo? O que nos ensina o sem-sentido de uma vida cujos supostos propósitos são mais arbitrariamente forjados que os argumentos em prol de sua absoluta carência de sentido?

 

***

I have now spent thirteen days under home hospitalization, long enough for my memories of life before the accident that thrust me into an entirely new world and way of living to become increasingly blurred, owing to my peculiar tendency to forget the past—even the very recent past. Although one might expect the days of someone in my condition to stretch endlessly, I scarcely notice the passage of time. As though unconsciously seeking to compensate for the inertia of a body with limited mobility, my cognitive activity never ceases. I have been working a great deal. Before anyone advises me to rest, I should point out that my inclination toward work is natural rather than burdensome. The activities I subsume under the name work include writing my thesis for promotion to Full Professor, preparing lectures and teaching them, supervising academic research (from undergraduate scientific initiation projects to doctoral dissertations), reviewing manuscripts for scholarly journals and serving on university committees, in addition to the considerable coursework and study required by my Psychology degree. During my moments of rest, I devote myself to reading, upon which the entire edifice of both my work and my inner life is built—two dimensions that, for me, are simply two faces of the same coin. At present, I alternate among five books, moving from one to another as I finish each chapter or comparable division. I am reading Dementias, by the psychoanalyst Delia Goldfarb; Freud's Pre-Psychoanalytic Writings; Thomas Mann's The Magic Mountain; the Bhagavad Gita; and the Bible.

And so the days pass. A little while ago, yesterday was today. In a little while, today will be yesterday, and tomorrow will become a new today. I ask myself whether it has become a cliché to say that the days go by. Perhaps it has. Yet our use of the verb to pass in reference to days is itself an instance of the embodied metaphors through which we render, within consciousness, processes and dimensions that cannot be reduced to material entities. Through this cognitive strategy, days—and even our affective relationships—are transformed, in our imagination, into a journey, a voyage. Within the symbolic order and the embodied metaphors of everyday life, each day becomes a life in miniature, insofar as it gathers into a single unit the constituent processes of an entire lifetime: birth (awakening), death (falling asleep), and development (growth and reproduction—that is, everything we do, think, and are between waking and sleeping).

Now, insofar as each day constitutes a small life within the larger span of an entire life, we also enjoy greater autonomy, within these daily lives, over our own development—however one chooses to conceive it, whether mental, psychological, or spiritual. This is true not only because the beginning lies closer to the end, but because within this brief cycle of development enclosed between awakening and sleep we possess both the privileged guidance of the past as it is made present in consciousness and the emotional states of the present, which serve an important homeostatic function within the mind. Nor, I believe, is it obvious that every single day offers us the opportunity to smooth away some of the harmful rough edges that cut across our lives and to correct the mistakes of the past. In much the same way, every nightfall provides a privileged occasion to take inventory of our own existence. If existence possesses any meaning whatsoever, wherever that meaning may ultimately be found, it cannot fail to involve, directly or indirectly, our own development. If, on the other hand, existence possesses no intrinsic meaning—as I, an atheist, believe to be the case—then developing ourselves is nevertheless the best use we can make of this interval of time into which we have been cast, suspended between the non-being from which we came and the non-being toward which we are moving.

The new life that arises with every dawn carries within it the traces of all our previous lives, of all our yesterdays. For that very reason, our healing wounds can always be reopened, awakening memories of suffering or reviving them—often with equal or even greater intensity.

As I reflect upon what those who, in various ways, maintain that suffering is a teacher have to say, I find myself recalling the countless wisdom texts in which we encounter the notion that wisdom enables us to hear the non-verbal voices—the voices of life, of nature, or of God. What does an event that completely alters the course of our lives teach us? What does sadness teach us? What does the inability to establish emotional connection teach us? What does the loneliness that arises from the awareness that we are irredeemably alone teach us? What does the silence of rainy days and Sunday afternoons teach us? What does the apparent meaninglessness of a life whose supposed purposes seem even more arbitrarily constructed than the arguments advanced in favor of its complete lack of meaning teach us?


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Arte/Art
DELACROIX, Eugène
Sketch for The Death of Sardanapalus
c. 1827
Pastel over graphite, chalk and crayon on unbleached paper, 440 x 580 mm
Musée du Louvre, Paris

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