Encontro-me há
13 dias em regime de internação domiciliar; o suficiente para que fiquem
enevoadas as lembranças que tenho de minha vida antes do acidente que me
inseriu em um novo mundo e modo de vida, dada a estranha característica que
tenho de esquecer o passado, ainda que muito próximo. Embora se espere que
sejam longos os dias de um indivíduo que se encontre nas condições que me
encontro, mal vejo o tempo passar: como que inconscientemente buscando
compensar a inércia de um corpo com pouca mobilidade, minhas atividades
cognitivas não cessam. Tenho trabalhado muito. Antes que me recomendem o
repouso, preciso ressaltar: é, em mim, natural – e não penosa – a inclinação
para o trabalho. No que diz respeito ao conjunto de atividades que chamo de
trabalho, concilio a redação de minha tese de titularidade, preparação de aulas
e as próprias aulas, orientações de trabalhos acadêmicos (desde a iniciação
científica até teses de doutorado), emissão de pareceres para periódicos
científicos e para as comissões da Universidade, além dos abundantes trabalhos
e estudos do curso de Psicologia. Em meu descanso, dedico-me à leitura, sobre a
qual é soerguido o edifício do meu trabalho e do meu espírito, dimensões que, em
mim, são duas faces de uma mesma moeda. Nesse momento, alterno entre 5 livros, revezando-os
à medida que encerro um capítulo ou divisão semelhante. Estou lendo ‘Demências’,
da psicanalista Delia Goldfarb; os ‘textos pré-psicanalíticos’, de Freud; a ‘Montanha
mágica’, de Thomas Mann; o ‘Bhagavad Gita’ e a Bíblia.
E assim transcorrem
os dias. Há pouco, o ontem foi hoje. Daqui a pouco, o hoje será ontem, e o
amanhã será um novo hoje. Seria um clichê, pergunto-me, dizer que os dias
passam? Talvez. Por outro lado, o uso do verbo ‘passar’ para se referir aos ‘dias’
é uma intervenção das metáforas corporificadas a que recorremos para materializar,
em nossa consciência, processos e outras dimensões irredutíveis a entidades
materiais. Sob esse estratagema cognitivo, dias e relações afetivas
transformam-se, em nossa imaginação, em uma viagem, em uma jornada. No âmbito
do simbólico e das nossas cotidianas metáforas corporificadas, cada dia é uma
vida, na medida em que reúne, em uma unidade, os processos constituintes de uma
vida inteira: o nascimento (o despertar), a morte (o adormecer) e o
desenvolvimento (o crescimento e a reprodução, isto é, tudo que fazemos,
pensamos e somos entre o despertar e o adormecer).
Ora, na mesma
medida em que cada dia é uma pequena vida dentro de uma vida inteira, também é
maior a autonomia que temos, no interior de nossas pequenas vidas diárias, em
relação ao nosso desenvolvimento, conceba-o como quiser, mental, psíquico ou
espiritual: não apenas por estar mais próximo o início do fim, mas por termos, neste
pequeno ciclo de desenvolvimento abarcado pelo tempo entre o despertar e o
adormecer, não apenas a orientação privilegiada do passado presentificado na
consciência como os humores presentes, que atendem a um propósito homeostático mental
importante. Acredito também não ser óbvio conceber que cada dia é a
oportunidade para desbastar algumas das arestas daninhas que atravessam os
nossos dias e tentar corrigir os erros pregressos, assim como, na mesma
esteira, cada anoitecer é uma oportunidade privilegiada para inventariamos
nossas próprias existências. Se a existência possui sentido, independentemente
de onde o encontremos, não é possível que não envolva, direta ou indiretamente,
o nosso desenvolvimento. Se não possui sentido algum, como eu, um ateu,
acredito ser o caso, desenvolvermo-nos é o melhor que podemos fazer com esse
período de tempo no qual fomos jogados entre o não-ser de onde viemos e o
não-ser do para onde vamos.
A nova vida que
surge em cada amanhecer traz consigo os vestígios de nossas últimas vidas, de
todos os nossos ontens. Por isso mesmo, nossas feriadas em cicatrização sempre
podem ser reabertas, despertando lembranças de sofrimentos ou os reavivando,
não raramente com igual ou maior intensidade.
Ao pensar no
que dizem aqueles que, de diferentes formas, advogam que o sofrimento é
professor, recordo-me do grande número de textos sapienciais nos quais
encontramos a ideia de que a sabedoria nos capacita a ouvir as vozes
não-verbais, da vida, da natureza ou de Deus. O que nos ensina um problema que
muda por completo o rumo de nossas vidas? O que nos ensina a tristeza? O que
nos ensina a incapacidade de conexão emocional? O que nos ensina a solidão que
advém da consciência de que estamos irremediavelmente sós? O que nos ensina o
silêncio de dias chuvosos e tardes de domingo? O que nos ensina o sem-sentido
de uma vida cujos supostos propósitos são mais arbitrariamente forjados que os
argumentos em prol de sua absoluta carência de sentido?
***
I have now spent thirteen days under home
hospitalization, long enough for my memories of life before the accident that
thrust me into an entirely new world and way of living to become increasingly
blurred, owing to my peculiar tendency to forget the past—even the very recent
past. Although one might expect the days of someone in my condition to stretch
endlessly, I scarcely notice the passage of time. As though unconsciously
seeking to compensate for the inertia of a body with limited mobility, my cognitive
activity never ceases. I have been working a great deal. Before anyone advises
me to rest, I should point out that my inclination toward work is natural
rather than burdensome. The activities I subsume under the name work include
writing my thesis for promotion to Full Professor, preparing lectures and
teaching them, supervising academic research (from undergraduate scientific
initiation projects to doctoral dissertations), reviewing manuscripts for
scholarly journals and serving on university committees, in addition to the
considerable coursework and study required by my Psychology degree. During my
moments of rest, I devote myself to reading, upon which the entire edifice of
both my work and my inner life is built—two dimensions that, for me, are simply
two faces of the same coin. At present, I alternate among five books, moving
from one to another as I finish each chapter or comparable division. I am
reading Dementias, by the psychoanalyst Delia Goldfarb; Freud's
Pre-Psychoanalytic Writings; Thomas Mann's The Magic Mountain; the Bhagavad
Gita; and the Bible.
And so the days pass. A little while ago, yesterday
was today. In a little while, today will be yesterday, and tomorrow will become
a new today. I ask myself whether it has become a cliché to say that the days
go by. Perhaps it has. Yet our use of the verb to pass in reference to days is
itself an instance of the embodied metaphors through which we render, within
consciousness, processes and dimensions that cannot be reduced to material
entities. Through this cognitive strategy, days—and even our affective relationships—are
transformed, in our imagination, into a journey, a voyage. Within the symbolic
order and the embodied metaphors of everyday life, each day becomes a life in
miniature, insofar as it gathers into a single unit the constituent processes of
an entire lifetime: birth (awakening), death (falling asleep), and development
(growth and reproduction—that is, everything we do, think, and are between
waking and sleeping).
Now, insofar as each day constitutes a small life
within the larger span of an entire life, we also enjoy greater autonomy,
within these daily lives, over our own development—however one chooses to
conceive it, whether mental, psychological, or spiritual. This is true not only
because the beginning lies closer to the end, but because within this brief
cycle of development enclosed between awakening and sleep we possess both the
privileged guidance of the past as it is made present in consciousness and the
emotional states of the present, which serve an important homeostatic function
within the mind. Nor, I believe, is it obvious that every single day offers us
the opportunity to smooth away some of the harmful rough edges that cut across
our lives and to correct the mistakes of the past. In much the same way, every
nightfall provides a privileged occasion to take inventory of our own
existence. If existence possesses any meaning whatsoever, wherever that meaning
may ultimately be found, it cannot fail to involve, directly or indirectly, our
own development. If, on the other hand, existence possesses no intrinsic
meaning—as I, an atheist, believe to be the case—then developing ourselves is
nevertheless the best use we can make of this interval of time into which we
have been cast, suspended between the non-being from which we came and the
non-being toward which we are moving.
The new life that arises with every dawn carries
within it the traces of all our previous lives, of all our yesterdays. For that
very reason, our healing wounds can always be reopened, awakening memories of
suffering or reviving them—often with equal or even greater intensity.
As I reflect upon what those who, in various ways,
maintain that suffering is a teacher have to say, I find myself recalling the
countless wisdom texts in which we encounter the notion that wisdom enables us
to hear the non-verbal voices—the voices of life, of nature, or of God. What
does an event that completely alters the course of our lives teach us? What
does sadness teach us? What does the inability to establish emotional
connection teach us? What does the loneliness that arises from the awareness that
we are irredeemably alone teach us? What does the silence of rainy days and
Sunday afternoons teach us? What does the apparent meaninglessness of a life
whose supposed purposes seem even more arbitrarily constructed than the
arguments advanced in favor of its complete lack of meaning teach us?
***
DELACROIX, Eugène
Sketch for The Death of Sardanapalus
c. 1827
Pastel over graphite, chalk and crayon on unbleached paper, 440 x 580 mm
Musée du Louvre, Paris

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